Como ensinar na época do “pós-verdade”?

– Professor Associada em People, Organizations, Society, Grenoble École de Management (GEM).

Artigo original, Comment enseigner à l’heure de la « post-vérité » ?, publicado em The Conversation – France, in:

Este texto é base para a atividade dos alunos dos Terceiros Anos do Ensino Médio.

Na época da pós-verdade atual (post-truth) os professores se veem diante de novos desafios. Seus estudantes são expostos a um repertório de ideologias e crenças das mais variadas. Certas ideologias são alimentadas para o que é astuciosamente intitulada, nos Estados Unidos, de “direita alternativa” ou “alt-right”, assim como a profusão de movimentos identitários na Europa.

O ano de 2016, com o Brexit e Trump como exemplos, marcou a entrada de toda uma nova “estrutura de permissividade” facilitada pelos meios sociais. Este novo esquema permite aos indivíduos de contornar o consentimento das autoridades tradicionais (tais como os chefes religiosos, os intelectuais ou experts, os líderes de partidos políticos), que antigamente servia como porta vozes dos discursos admissíveis.

As eleições americanas marcaram um giro ao que concerne ao encorajamento do pensamento autoritário, até aqui marginalizado pela imprensa e pela maioria política. Uma trapaça corrente de reacionários consiste em inverter os papeis sociais tradicionais: aqueles estereotipados como racistas são retratados como as verdadeiras vítimas oprimidas e aqueles classificados como esquerdistas progressistas transformaram-se em policiais do pensamento politicamente correto.

O escritor americano David Horowitz, por exemplo, ganha a sua vida com base na inversão dos papeis. Esses livros miram, entre outros, os “professores perigosos” ou, então, o “racismo progressista”.

As novas ferramentas.

Os professores têm uma tarefa enorme pela frente. Como podemos responder à retórica da “direita alternativa”? Quais são as habilidades básicas necessárias para promover a cidadania em sociedades democráticas e nos locais de trabalho conhecidos por uma maior mistura cultural?

Nós podemos encontrar algumas respostas no estudo feito em 2013 pela Britsh Council, “Cultura at Work”, que se deu como objetivo compreender quais eram as qualidades mais importantes para os empregados das empresas internacionais.

Após ter sondado centenas de RH para classificar as competências, valores e atitudes mais importantes entre seus novos recrutas, alguns elementos chaves emergiram, sublinhados em amarelo na tabela abaixo. Eles puderam observar não somente as qualidades de inteligência emocional, mas também os elementos de inteligência cultural; esta capacidade de um indivíduo, face a um estrangeiro, de “interpretar com facilidade seus gestos inabituais e, talvez, ambíguos da mesma forma que os de seus compatriotas”.

Como professores, buscamos cultivar essa inteligência, expondo os alunos a uma variedade de situações práticas: projetos em equipes multiculturais, missões com outras equipes globais de estudantes de MBA vivendo em diferentes fusos horários, jogos sobre incidentes críticos relacionados à cultura. No entanto, este trabalho não pode se fazer se faltar um ingrediente essencial – esta qualidade classificada acima de todas as outras: a demonstração de respeito pelo outro.

Muitos comportamentos e atitudes indicam o respeito: a abertura para os outros, a vontade de escutar as opiniões diferentes, e a capacidade de incluir quanto mais possível as perspectivas nos processos decisórios.

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Forjar o respeito aos outros.

Uma inspiração importante entre os professores de ciências sociais é levar os alunos a uma consciência da natureza construída e imaginada da diferença humana. A identidade, a raça, a religião ou o sexo, por exemplo, são construções sociais e, portanto, são inerentemente suscetíveis a erro humano.

Criar nos estudantes a consciência de suas próprias ideias preconcebidas, que em inglês se chama de “blind spots” (ângulo morto), deveria leva-los a apreender, momentaneamente, suas próprias perspectivas, ignoradas até aquele momento.

Pode-se explorar esse princípio no site do Projet Implicite da Universidade de Harvard, que trabalha sobre a cognição social implícita e as associações mentais inconscientes. O objetivo do projeto é de educar o público sobre os preconceitos “escondidos” e de fornecer um laboratório virtual para coletar e compartilhar informações sobre essa questão. Cada um pode, então, descobrir suas próprias perspectivas e ideias preconcebidas sobre vários temas (o gênero, a religião, a política, a obesidade, a cor da pele, ou a sexualidade, entre outros), fazendo um dos muitos testes sobre as associações implícitas online.

O objetivo deste exercício não é de culpar ou de jugar, mas, sobretudo, de viver a experiência do teste e, em seguida, as implicações diversas que ela engendra na vida cotidiana.

Inculcar um sentido de história.

Favorizar uma tomada de consciência história e um sentimento de urgência histórica (um sentido forte do “agora”) pode ajudar os estudantes a se vincular as questões de identidade cultural de três maneiras diferentes. Esta consciência pode oferecer aos alunos uma compreensão de seu lugar no mundo. Ela pode igualmente ajudar a compreender o papel dos antigos e a história respectiva das famílias na elaboração do presente. E, finalmente, ela pode os ajudar a aprender sobre a natureza insubstituível do passado e os erros cometidos, afim de construir um futuro diante deles.

Para fazer isso, temos à nossa disposição uma série de ferramentas conceituais. No contexto contemporâneo, as “Teses sobre o conceito de história” de Walter Benjamin (1940) são muito úteis para conceituar nosso atual ambiente histórico.

Eu atribuo algumas dessas “teses” a um grupo de estudantes e peço-lhes para fazer ligações entre o que foi escrito por Benjamin e nosso lugar histórico do “agora”. Em terceiro lugar, eles devem desenvolver a identidade e as implicações culturais que lhes estão associados.

As Teses de Benjamin são realmente curtos aforismos escritos em um momento de grande emergência histórica na Europa. De acordo com Benjamin, “A situação de emergência em que vivemos é a regra.” Para ele, cada momento é um momento da história em seu pleno fazer e, portanto, ele carrega uma mensagem essencial que devemos tentar compreender.

Os alunos reagem de formas diferentes a estas atividades e discussões. O objetivo não é ganhar a sua concordância ou participação em uma ideologia particular, mas empurrá-los para desenvolver, mais do que nunca, a capacidade crítica na transmissão e recepção de informações.

Nessas atividades, o nosso papel é proteger o direito de todos à liberdade de expressão em sala de aula – especialmente aqueles com quem discordamos. Isto pode ser conseguido se forem satisfeitas duas condições importantes: o ponto de partida é crítico e informado e a intenção permanece honesta.

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