Pós-verdade: a razão do mais louco.

Charles Hadji – Professor emérito em Ciência da Educação. Universidade de Grenoble Alpes.

Artigo traduzido de https://theconversation.com/post-verite-la-raison-du-plus-fou-70712.

Este texto é base para a atividade dos alunos dos Terceiros Anos do Ensino Médio.

Sobre os planos político e social, vivemos uma época curiosa. Na era da pós-verdade, as fabricações parecem ter mais peso nas mentes que a realidade. Com relação a razão, trata-se de uma eclipse? Ou devemos temer um triunfo duradouro da irracionalidade?

Quando os “fake news” soterram o “fact checking”.

A campanha recente pelo “Brexit” na Grã-Bretanha, a eleição de Donald Trump nos EUA, e mesmo a vida política na França durante esses quinzes últimos anos, mostram, infelizmente, o peso crescente da mentira e da manipulação nos negócios públicos. As contra-verdades são sustentadas pelas simples (e aceitáveis) figuras de retórica ou de imagens fortes, com as quais um discurso político não poderia competir.

A mentira torna-se uma maneira (julgada hábil e, de fato, eficiente) de comunicar. Os fanfarrões, os oradores lisos, mentores, conseguem fazer de tudo para ter por verdade qualquer mentira ou calúnia. O fenômeno dos “fake news” (fabricação e propagação de falsas notícias), têm precedência sobre o esforço do “fact checking” (verificação dos dados e fatos). As fábulas são mais apreciadas que os fatos. Uma boa “mentira” é melhor que a austera e perturbadora verdade.

Somos vítimas ou cúmplices?

O problema é que não temos realmente rigor nos autores de aproximações ou de propostas ultrajantes. Numerosos são os indivíduos prestes a crer nas calúnias e mentiras que lhe servem. Isto pode não surpreender no caso de adolescentes e jovens que, de acordo com uma publicação recente da Universidade de Stanford, são facilmente enganados por falsas informações on-line, por causa da fraqueza de sua capacidade de raciocínio voltado para internet.

Além disso, de uma forma ainda mais preocupante, o funcionamento das redes sociais coloca os seus utilizadores a se fecharem numa bolha de suas próprias opiniões pessoais, procurando e encontrando tudo o que vem a confortar as suas opiniões. E, mesmo os que não são prisioneiros da internet, milhões de pessoas estão prestes a crer não importa no que, como testemunha a força dos rumores.

Este movimento é irreversível? A preocupação com a verdade está em queda irremediável? O pós-verdade vai representar o último horizonte da vida pública?

No “pós-verdade”, tudo é possível?

Buscar uma positividade da pós-verdade poderá parecer chocante. Como podemos justificar o reino do falso, da calúnia e da mentira? Mas existe, talvez, na “pós-verdade”, lições para tirarmos. Os discursos políticos que se deleitam em jogar com as emoções e as paixões, pois estes são o primeiro motor da vida política.

O discurso racional tem pouco poder para mobilizar os cidadãos. Para fazer viva a democracia, é necessário mobilizar as paixões. Porque uma parte do sonho é necessário ao “povo” para que ele se aproprie do projeto, e o mantenha vivo. Certos, o sonho nos coloca na ficção. Mas Raffaele Simone mostrou, em sua obra “Se a democracia falha”, que os cidadãos que vivem em democracia necessitam ter por verdade certas ficções, inscrevendo-se numa mitologia, a qual constitui um dos pilares fundamentais da democracia.

Portanto, se podemos eventualmente encontrar no discurso inscrito na pós-verdade um valor de lembrar o útil papel da ficção política, não podemos, evidentemente, nos satisfazer de uma situação onde isso se torna a norma. Porque há ficções úteis (por exemplo, a grandeza da América, a igualdade dos seres humanos), e ficções nocivas, porque são destrutivas (a maldade do imigrante, violador em potencial). Mas seria então possível – e como? – reencontrar o sentido da verdade que nos permitiria fazer a triagem entre um e outro?

O paradoxo da razoabilidade.

O que está em questão hoje é o significado da verdade. Espinoza pode nos ajudar à compreender. Ele afirmava precisamente que o “homem é sempre necessariamente submisso as paixões”. Mas, para Espinoza, as paixões estão vinculadas às ideias inadequadas. A paixão é privação de conhecimento. É necessário livrar-se dela e ultrapassá-la, para viver sob a conduta da razão.

A dificuldade é que as “imaginações” não desaparecem na presença da verdade, e que somente os sentimentos podem reprimir os sentimentos (Ética, Quarta parte). O conhecimento é impotente nos campos dos sentimentos: “O conhecimento verdadeiro do bom e do mal não pode, tão somente, suprimir nenhum sentimento”. Seríamos então prisioneiros das paixões, contra as quais a razão não pode nada?

Não. Segundo Espinoza, “o poder da mente, ou razão”, é um “império” sobre os sentimentos, “para suprimi-los e governá-los” (Ética, quinta parte). Este “poder do espírito sobre os sentimentos”, que se manifesta quando nos esforçamos para compreender, é salvador: “um sentimento-paixão cessa de ser uma paixão assim que nós formamos uma ideia clara e distinta”. O remédio aos sentimentos “consiste em seu conhecimento verdadeiro”. Mas, a entrada na pós-verdade, não nos mostrou precisamente que a aquisição deste conhecimento está longe de ser coisa fácil?

Um terceiro tipo de conhecimento, mas para quem?

O poder do conhecimento claro e distinto sobre os sentimentos caracteriza isto que Espinoza designou como o “terceiro tipo de conhecimento”. O primeiro é o da opinião ou imaginação. O segundo, das noções comuns. O terceiro, seria aquele onde “uma intuição intelectual única” permite produzir uma verdade incontestável. Quando estamos no terceiro tipo, os “sentimentos-paixões” não são, propriamente falando, suprimidos (pois somente um outro sentimento teria este poder). Mas eles são controlados, e reduzidos à porção congruente: o conhecimento “faz com que eles constituam a mais pequena parte do espírito” (Ética V, proposições 20). Mas, então, nada que seja inadequado, ou passivo, desaparece. É a esfera do ativo, e do adequado, que se desenvolve. A razão triunfa somente estendendo seu império.

Voilà: é exatamente o contrário que se passa hoje! Normalmente, poderíamos dizer, aquele que atinge o terceiro tipo de conhecimento não duvidaria da verdade a qual ele se elevou: “a verdade é norma de si mesmo e do falso”. Também é necessário ter atingido o terceiro tipo e se tornar capaz de ver com os “olhos da mente”. O que acontece quando milhões de pessoas não parecem chegar lá? O que fazer quando elas acabam negando a realidade, mesmo diante da verdade, e a capacidade de alcança-la.

A pós-verdade nos conduz exatamente a este ponto. O exemplo dado por Espinoza para ilustrar a “ciência intuitiva” do terceiro tipo é particularmente interessante neste sentido. Pensemos nos números 1, 2 e 3. Agora encontremos um quarto número que esteja para o terceiro como o segundo está para o primeiro. “Não há ninguém que não veja que a quarta proporção é 6”.

Voilà: hoje, muitos não veem mais nada (ou não querem ver nada)! Com a pós-verdade, entramos no mundo dos “provérbios de hoje” que canta Guy Béart. Provérbios que “a nossa época ecoa” como “os gritos da noite”. Assim:

“Dois e dois são cinco ou três

Para o pensador são quatro

Dois e dois são cinco ou três

É nisso que acreditamos”.

Será possível encontrar um caminho que permita sair desta noite?

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