Os Nacirema, estranhando a nós mesmos

Este é um ótimo texto para refletir com os alunos a nossa própria cultura. O autor nos permite realizar um distanciamento, ao descrever nossas práticas culturais como se fossem de um grupo “exótico” e “selvagem”, criando, desta forma, um estranhamento (e até mesmo uma repulsa).

Recomendo que o professor leve o texto impresso, distribua aos alunos e faça uma leitura em voz alta com todos ao mesmo tempo. Em seguida, pergunte o que acharam e incentive-os a criticar e apontar as “bizarrices” desta estranha sociedade. Depois de um tempo, o professor revela que Nacirema é American ao contrário. Com a descoberta, a discussão ganha outra dimensão.

Ritos corporais entre os Nacirema*

Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os Tarahumare do México, e os Caribe Arawak das Antilhas.   Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem à sua nação; ele é, por outro lado, conhecido por duas façanhas de força: ter atirado um colar de conchas, usado pelos Nacirema como dinheiro, através do rio Po-To-Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Espírito da Verdade.

A crença fundamental referente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características através do uso das poderosas influências do ritual e do cerimonial. Cada moradia tem um ou mais santuários destinados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas e, de fato, a referência à riqueza de uma casa, muito frequentemente, é feita em relação ao número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de madeira, toscamente pintadas, mas as câmeras de culto das mais ricas têm paredes de pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas, aplicando placas de cerâmica às paredes de seu santuário.

Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, mas sim cerimônias privadas e secretas. Os ritos, normalmente, são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, somente durante o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Eu pude, contudo,   estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e obter   descrições dos rituais .

Abaixo da caixa de encantamentos existe uma pequena pia. Todos os dias cada membro da família, um após o outro, entra no santuário, inclina sua fronte ante a caixa de encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia e procede a um breve rito de limpeza. As águas sagradas vêm do Templo da Água da comunidade, onde os sacerdotes executam elaboradas cerimônias para tornar o líquido ritualmente puro.

Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos-feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja “nome” pode ser traduzido por “sagrados-homens-da-boca”. Os Nacirema têm um horror quase que doentio, e ao mesmo tempo fascinação, pela cavidade bucal, cujo estado acreditam ter uma influência sobre todas as relações sociais. Acreditam que, se não fosse pelos rituais bucais seus dentes cairiam, seus amigos os abandonariam e seus namorados os rejeitariam. Acreditam também na existência de uma forte relação entre as características orais e as morais: Existe, por exemplo, um ritual da boca para as crianças com o objetivo de aprimorar sua fibra moral.

O ritual do corpo executado diariamente por cada Nacirema inclui um rito bucal. Apesar de serem tão cuidadosos no cuidado bucal, este rito envolve uma prática que  choca o estrangeiro não iniciado, que só pode considerá-la revoltante. Foi-me  relatado que o  ritual  consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na  boca juntamente com certos pós mágicos, e em movimentá-lo então numa série de gestos altamente formalizados. Além do ritual bucal privado, as pessoas procuram o  mencionado sacerdote-da-boca uma ou duas vezes ao ano. Estes profissionais têm uma impressionante coleção de instrumentos, consistindo de brocas, furadores, sondas e aguilhões. O uso destes objetos no exorcismo dos demônios bucais envolve,   para o cliente, uma tortura ritual quase inacreditável. O sacerdote-da-boca abre a boca  do cliente e, usando os instrumentos acima citados, alarga todas as cavidades que a degeneração possa ter produzido nos dentes.

Foi a estas tendências que o Prof. Linton (1936) se referiu na discussão de uma parte específica dos ritos corporais que é desempenhada apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e machucar a superfície da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em frequência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimônia, as mulheres costumam colocar suas cabeças em pequenos fornos por cerca de uma hora. O aspecto teoricamente interessante é que um povo que parece ser preponderantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas sádicos.

Os médicos-feiticeiros têm um templo imponente, ou latipsoh, em cada comunidade de certo porte. Uma boa proporção de nativos realmente doentes que entram no templo se recuperem. Sabe-se que as crianças pequenas, cuja doutrinação ainda é incompleta, resistem às tentativas de levá-las ao templo, porque “é lá que se vai para morrer”. Apesar disto, adultos doentes não apenas querem, mas anseiam por sofrer os longos rituais de purificação, quando possuem recursos para tanto. Não importa quão doente esteja o suplicante ou quão grave seja a emergência, os guardiões de muitos templos não admitirão um cliente se ele não puder dar um presente valioso para a administração. Mesmo depois de ter-se conseguido a admissão, e sobrevivido às cerimônias, os guardiães não permitirão ao novato abandonar o local se ele não fizer outra doação. De tempos em tempos o médico-feiticeiro vem ver seus clientes e espeta agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que estas cerimônias do templo possam não curar, e possam mesmo matar o novato, não diminui de modo algum a fé das pessoas no médico feiticeiro.

Como conclusão, deve-se fazer referência a certas práticas que têm suas bases na estética nativa, mas que decorrem da aversão profunda ao corpo natural e suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas  gordas, e  banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres que os têm pequenos e torná-los menores quando são grandes. A insatisfação geral com o tamanho do seio é simbolizada no fato de a forma ideal estar viritualmente além da escala de variação humana. Umas poucas mulheres, dotadas de um desenvolvimento das mamas quase inumano, são tão idolatradas que podem levar uma boa vida simplesmente indo de cidade em cidade e permitindo aos embasbacados nativos, em troca de uma taxa, contemplarem-nos.

Nossa análise da vida ritual dos Nacirema certamente demonstrou ser este povo dominado pela crença na magia. É difícil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por tão longo tempo com a carga que impôs sobre si mesmo.

* Texto adaptado a partir de trechos do original:

MINER, Horace. In: A.K. Rooney e P.L de Vore (orgs.) You and the others – Readings in introductory Anthropology. Cambridge, Erlich, 1976.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Cultura e Etnocentrismo. ligação permanente.

Uma resposta a Os Nacirema, estranhando a nós mesmos

  1. Anónimo diz:

    ow fantastic baby

Deixar o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s