“Sejam os profetas de suas próprias vidas”, aos formandos COTIL 2014

Discurso como paraninfo na formatura do ensino médio noturno do COTIL – 2014

Ricardo C. Festi

Boa noite a todos.

Gostaria de começar saudando o Diretor Geral de nosso colégio, os demais diretores e a assessora especial da direção.

Também cumprimento meus demais colegas professores. Os pais, familiares e amigos que vieram prestigiar essa noite. E, obviamente, quero dar um grande abraço em todos os alunos aqui presentes, principalmente aqueles que estão esta noite obtendo seu diploma de ensino médio.

 * * *

Há dez dia aceitei o convite de ser paraninfo das turmas de 2012-2014, dos cursos noturnos do Colégio Técnico de Limeira. Recebi esse convite com imensa alegria, pois trata-se de homenagear e dar uma última palavra para aqueles que nesses últimos três anos foram meus parceiros na empreitada de ensinar e aprender.

E será sobre o ato de educar que eu dedicarei esta minha intervenção hoje.

Quero, com minhas palavras, responder a uma questão básica: “pra que serve a escola?”.

E também gostaria, se me permitirem, de relacionar isso com o dia de hoje: 20 de novembro, dia da consciência negra.

* * *

Para a primeira reflexão, gostaria de convocar um autor alemão chamado Theodor Adorno, um dos mais importantes autores da Escola de Frankfurt e de uma geração de intelectuais que viveu num período de grandes catástrofes humanas e de tempos acelerados, entre a primeira e a segunda guerra mundiais. Talvez por isso mesmo, esses intelectuais conseguiram ver num curto período o que havia de mais progressista e de mais reacionário na civilização humana. E isso, obviamente, marcou as suas obras.

Eu tive contato pela primeira vez com Adorno numa disciplina de licenciatura. O texto que tínhamos que ler já se destacava pelo seu título: “Educação após Auschwitz”. Vocês entenderão que, depois de lido esse texto, eu nunca mais o deixei fora das minhas leituras obrigatórias anuais. Ele é uma espécie de guia ou de lembrete, sempre ali me alertando das razões do porquê escolhi ser educador.

Auschwitz, como muitos aqui devem se lembrar, foi o maior campo de concentração criado pela Alemanha Nazista. Na verdade, tratava-se de uma rede de campos de concentração, que tinha em Auschwitz a sua sede administrativa, localizados no sul da Polônia anexada. Nesses campos de concentração, estima-se que foram executados mais de um milhão de pessoas, dentre judeus, cristãos poloneses, ciganos, comunistas, gays e todo tipo de gente que o nazismo considerava um mal ou uma ameaça. Esse fato ficou conhecido como Holocausto.

Adorno destacava, neste texto de 1969, que a tarefa de todo e qualquer educador é que Auschwitz nunca mais se repita! Pois, segundo ele

Aquilo foi a barbárie, à qual toda educação deve se opor. Fala-se de iminente recaída na barbárie. Mas ela não é iminente, uma vez que Auschwitz foi a recaída; a barbárie subsistirá enquanto perdurarem, no essencial, as condições que produziram aquela recaída. Esse é que é todo o horror.

Quais foram as condições que produziram aquela recaída à barbárie, ou seja, a busca do extermínio do ser humano pelo próprio ser humano? A resposta a essa questão é o que motivou as pesquisas de Adorno e outros de sua geração.

Theodor Adorno entende que a civilização ocidental levou ao desenvolvimento de dois processos distintos, mas que caminharam concomitantes: o desenvolvimento do pensamento irracional enquanto explicação do mundo e da razão instrumental.

Sua crítica vai contra a fé mantida pelos positivistas de que o esclarecimento, o conhecimento, a ciência levaria a humanidade a um bem estar social, a felicidade e a paz. Essa era a crença dos filósofos Iluministas. E foi nessa crença que a escola pública foi concebida, em meio a revolução francesa.

Mas a ciência, principalmente a do século XX, serviu também de instrumento para produzir bombas químicas e a bomba atômica, ou serviu para impulsionar um modelo produtivo ainda mais racionalizado, tornando os homens e as mulheres meros instrumentos das máquinas (só para ficarmos em alguns exemplos). A razão instrumental é sinônimo de colocar o conhecimento técnico e ideológico a serviço da dominação do homem sobre si mesmo e sobre a natureza. Portanto, é uma forma destrutiva de razão.

Mas para que a razão instrumental se reproduza, ela precisa de um terreno social que a legitime. Este é o papel político do irracionalismo, ou seja, legitimar algo que racionalmente seria ilógico (exemplo: o extermínio dos judeus foi justificado com os argumentos “científicos” sobre as raças superiores; hoje sabemos que raça, se é que podemos usar esse horrível termo, só existe uma, a raça humana).

Tendo o instrumento e o terreno de legitimação, falta então o mais importante, o sujeito que irá executar isso.

Aqui está a questão central de Adorno: os sujeitos proto-fascistas, como ele chamava, que na sua concepção são os sujeitos submissos, passivos, incapazes e preguiçosos de fazer uma reflexão crítica sobre a sua realidade. Esses indivíduos estão prontos para aceitarem toda e qualquer forma de autoritarismo sem questionar. Nesse processo, os sujeitos deixam de ser tais e tornam-se instrumentos.

Aqui está a chave do papel da educação para o filósofo alemão: a escola é a principal instituição na formação da personalidade dos indivíduos da sociedade. Uma escola autoritária e sem reflexão crítica é uma escola formadora de indivíduos autoritários.

Portanto, o papel da escola está justamente na formação de indivíduos críticos e autônomos, capazes de escolherem e de serem sujeitos de sua história. Indivíduos que lutam pela liberdade, não apenas de si mesmo, mas da humanidade.

Penso eu que Adorno é um autor atualíssimo, por isso seus textos, ainda que alimentem uma visão cética sobre o futuro, são de enorme importância. Na verdade, a sua atualidade é sinônimo de tragédia. Vejamos alguns exemplos:

1) a nossa relação com a natureza é a maior prova hoje de nosso irracionalismo e da instrumentalização da razão contra nosso planeta. Estamos poluindo e ficando sem recursos naturais, alguns deles essenciais, como a água, e ainda assim, mesmo com todos os alertas que temos recebidos, continuamos a destruir a natureza.

2) o enorme crescimento, nas últimas décadas, do discurso contra o outro, o diferente, na forma de racismo, homofobia e xenofobia, tem produzido formas agudas de violência.

3) o fortalecimento de explicações religiosas para fenômenos que são estritamente políticos. Quando as explicações religiosas tomam o lugar do que deveria ser do debate racional e político, essa é outra demonstração do irracionalismo de nossos tempos.

4) o último exemplo, e teríamos milhares para dar, remete ao Dia da Consciência Negra em nosso país. Se podemos fazer uma analogia da reflexão de Adorno, se Auschwitz representou para a humanidade a recaída na barbárie, em nosso país a escravidão representou a maior barbárie de nossa civilização. Para essa escravidão, havia um cálculo econômico (produzir riquezas para as metrópoles) e uma legitimação sob um discurso das “raças” inferiores e superiores. A escravidão, como eu sempre digo aos meus alunos, marcou e ainda marca a sociedade brasileira. Comemorar o dia da morte de Zumbi dos Palmares, o escravo insurrecto, criador do mais importante Quilombo, é colocar sobre reflexão o nosso racismo, a nossa cultura e o nosso futuro.

A diferença entre um sujeito autônomo e o indivíduo passivo é que o primeiro pode fazer escolhas a partir de uma reflexão crítica. O racismo, a homofobia, a xenofobia, a destruição da natureza, a pobreza, só podem ser justificados sob o crivo de uma ideologia irracionalista.

Eu acredito que a escola é um local de disputa, pois ela é um reflexo das disputas que ocorrem na sociedade de conjunto. Ainda que tenhamos uma estrutura escolar autoritária, ela ainda é um local privilegiado de produção e reprodução do conhecimento, da reflexão e da crítica. Por isso acredito no papel que temos enquanto educador. E vocês são nossas fontes renováveis que alimentam essa nossa esperança num mundo melhor.

* * *

Para finalizar, mais uma coisa apenas:

Este ano tive o privilégio de fazer parte de um projeto acadêmico que considero da maior importância, pois ele representa o que há de mais avançado na prática educativa dentro das instituições de excelência acadêmica em nosso país. Estou me referindo ao trabalho de orientação de alunos na iniciação científica.

Tive o prazer de orientar duas alunas, duas pessoas que se mostraram dedicadas e inteligentes, produzindo, através de suas singelas pesquisas, reflexões criativas sobre seus objetos de estudo.

Tive também o prazer de neste ano conhecer o trabalho de outros professores, como foi o caso da profa. Rosmary e do prof. André, que deram continuidade aos trabalhos de orientação iniciados pela da profa. Carol e do prof. Maurício em 2013.

Foi através também dessa nova oportunidade de trabalho, que conheci um dos professores mais criativos do COTIL, o Fernando Bryan, que orientou diversos alunos na busca de inovações tecnológicas e trouxe um prêmio para o nosso colégio.

Orientar alunos nos tira da zona de conforto e nos coloca na tarefa de nos educador, estudar e pesquisar. Passamos a olhar a escola por uma outra perspectiva, não se restringindo a relação sala de aula.

O que mais chama a atenção nesse processo, é que a maioria dos alunos que fizeram parte de pesquisas de iniciação científica no COTIL era dos cursos noturnos, o que coloca por terra alguns mitos sobre os alunos desse período. E tudo isso sendo feito, com alunos que, em sua maioria, já exercem alguma atividade de trabalho remunerado.

São por essas e outras coisas que me convenço que a escola tem um potencial emancipador enorme. Local que possibilita germinar não só para o pensamento crítico, mas a criação de produtos que visem a melhoria de nosso mundo.

 * * *

Agradeço, para finalizar, por tudo o que vocês me ensinaram nesses últimos três anos e espero que o COTIL tenha contribuído à vocês na construção desse pensamento crítico e autônomo.

De tudo que tentei ensinar nesses anos, apenas uma lição me satisfaria se fosse incorporado pela maioria: não deixemos a vida passar na nossa frente, nos mantendo alheios as contradições desta sociedade desigual; sejamos nós mesmos os protagonistas.

Como disse André, não este que está aqui conosco, nosso querido professor de Filosofia, apesar de que esta frase poderia ser dele também, mas me refiro ao André, personagem de Lavoura Arcaica, um dos livros de literatura mais apaixonante que conheço, escrito por Raduan Nassar. Num dos clímax do livro (e ele é cheio de clímax, senão o livro interior), o personagem, com a boca cheia de fúria e escárnios verbais, deitado sozinho sobre as folhas das árvores detrás da fazenda de sua família, diz para si mesmo:

e mal saindo da água do meu sono, mas já sentindo as patas de um animal forte galopando no meu peito, eu disse cegado por tanta luz tenho dezessete anos e minha saúde é perfeita e sobre esta pedra fundarei minha igreja particular, a igreja para o meu uso, a igreja que frequentarei de pés descalços e corpo desnudo, despido como vim ao mundo, e muita coisa estava acontecendo comigo pois me senti num momento profeta da minha própria história, não aquele que alça os olhos pro alto, antes o profeta que tomba o olhar com segurança sobre os frutos da terra, e eu pensei e disse sobre esta pedra me acontece de repente querer, e eu posso!

Vocês podem! Sejam os profetas de suas próprias vidas. Sejam os protagonistas deste mundo que se abre para todos nós.

Parabéns, boa sorte e até logo, espero!


Discurso proferido na formatura dos alunos dos cursos noturnos do COTIL, 20 de novembro de 2014.

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