Um abismo e um desabafo…

Por Rafael Del’Omo Filho*
 

Algumas horas sinto que um abismo me separa dos meus alunos… Acabei de saber que quatro jovens foram assassinados perto de casa, uma notícia que anda muito corriqueira por esses lados. Não é a primeira vez que ouço algo parecido nas últimas duas semanas, parece que já são 11. Na hora que me contaram, assistia a um vídeo do Emicida comentando o badalado caso de racismo da torcedora do grêmio. E ele dizia como uma criança negra se sente num caso desses, que se sente menos, se sente feia, com vergonha da sua cor, mas não entende o que é o racismo. E perguntam como combater o racismo e ele responde: “Levantar a cabeça”. E depois diz: “o combate ao racismo tem que vir de dentro da escola”.  E coloca o problema da negação do racismo. O racismo no Brasil se esconde nessa forma nojenta de se dizer antirracista. Imagine se o mais influente diretor de jornalismo do país publicasse um livro chamado “Não somos racistas”? Pois é, é o título do livro do diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel. Imagine que o maior ícone negro do país mesmo negasse e minimizasse o racismo como faz o nosso poeta calado, Pelé. Ou que o principal argumento de um determinado professor universitário racista consistisse em transpor a inexistência biológica das raças para uma sutil negação social das raças, ancorado em teses e publicações acadêmicas. Ou que um dos principais argumentos anticotistas do país fosse que essa sim seria uma medida… RACISTA! Ou senão tentando esconder o problema racial como somente um problema socioeconômico sem especificidade.

Não bastasse a notícia dos assassinatos, abri a matéria e o título “Grupo queima dois ônibus e fecha rodovia Raposo Tavares”[1]. Inevitável pensar em Chico: morreu na contramão atrapalhando o tráfego… O destaque é claro para o “vandalismo” e o assassinato em si nem consta no título, afinal, é totalmente secundário, o importante é a depredação dos pobres ônibus (seus pobres colegas de garagem devem estar chorando muito por eles) e a interrupção do trânsito. “A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas” dizia Marx. E tentam me convencer que o velho alemão está ultrapassado, é coisa do século XIX… Agora ter opinião do século XVI-XVIII, tudo bem, é moderno! Mas assistindo a notícia, não bastasse a barbaridade do assassinato, piora: os policiais militares mataram os jovens e espalharam fotos nas redes sociais como troféu! As lágrimas de crocodilo da gremista são, com certeza, muito mais sinceras e merecedoras de comoção do que as da estudante Luana da Silva que aparece no vídeo do SBT. A sabedoria das donas de casa é estarrecedora pros nossos dias: “Se suspeitava, prendesse, né? Mas matar do jeito que matou?” diz Antônia, enquanto Teresa diz: “Tem uma troca de tiro e há quatro baleados sem nenhum morto com tiro na perna, no quadril, mas só no peito e na cabeça?”. Nosso país já tem redução de maioridade penal com a pena máxima de morte e o julgamento é de uma velocidade impressionante! Desculpem, mas estou pouco me lixando pra saber o que esses jovens fizeram, sabe por quê? Ninguém sabe, mas eles já foram julgados e assassinados! O próprio boletim da polícia diz que “não foi possível consultar a origem do veículo usado pelos rapazes”. Não venha distorcer meu argumento dizendo que estou defendendo “bandidos”, mesmo que descubram daqui uns dias que eles cometeram algum delito (sem precisar forjar nada como é a praxe da nossa polícia), o que importa? Eles já foram executados! Atira primeiro, pergunta depois.

Há menos de um mês, uma professora de um colégio estadual perto de casa me mandava a seguinte mensagem: “mais um morto pela polícia 😦 To cansada hoje… triste com o mundo assim, sabe?”. O “mais um” era aluno dela. Estatística pras minhas aulas, uma cadeira vazia na sala dela. Um número na minha sala; luto, pesar e lágrimas na dela. Na semana seguinte, a mesma professora me manda as seguintes mensagens:

 “Ain… Isso é minha escola: Parece que prenderam alunos que fumaram um baseado, botaram um menor na viatura, bateram nele e deixaram-no numa avenida. Ele voltou pra escola e contou o que tinha acontecido, colocaram fogo em apostilas no pátio ontem, toda uma treta, por isso demoraram pra abrir o portão. E parece que ameaçaram de amanhã de manha fazer aqui o que fazem nos Estados Unidos… Vir armado e atirar em todos.

Pesado, né?

Tô meio passando mal… Mas nem sei se é com esse lance da escola… Pior é isso, nem sei o que é.

Fico com raiva da vida que esses moleques levam… Muita raiva!

Seus alunos nem conseguem imaginar o que é isso, né?

Olha como a realidade é! Olha pros meus alunos e olha pros seus. Parece o mesmo mundo?”

Não! Não é o mesmo mundo.  Hoje mesmo me deparei com aquele velho senso comum pró-chacina policial indiscriminada. Felizmente, esses extremos são uma minoria ínfima, insignificante. Ao mesmo tempo em que olhava para a cara de cachorro sem dono da gremista “arrependida”, me lembrava de uma frase: “Nem todo mundo que é contra as cotas é racista, mas todo racista é contra as cotas”. E pensei como esse é o máximo da discussão que chega a questão racial com meus alunos, na verdade, ela é toda minimizada por isso. Afinal, foda-se que essa seja a realidade, a questão é quem vai ficar com a vaga. Lembro-me de ler e ouvir os mais variados absurdos sobre essa questão, inclusive que essa seria uma medida racista. Claro, talvez, se vivêssemos em Júpiter. É muita mesquinharia! Sério! A realidade ao redor da minha casa é o da violência policial, do descaso total com a educação pública e a discussão de uma medida miserável como cotas ganha a dimensão de uma batalha hercúlea! A realidade são jovens negros assassinados todos os dias, uma gigantesca parcela que sequer se forma nos ensino básico e uma medida mínima, pequena, uma reparação histórica insignificante para o que esse Estado deve pra essa gente vira uma grande batalha ideológica. O nosso Estado é tão sanguinário que não se contenta em matar negros por aqui, tem que fazer um racismo tipo exportação e manter uma invasão há dez anos no Haiti mesmo quando o próprio Senado haitiano já aprovou duas vezes por unanimidade o fim da ocupação! E nenhuma dessas discussões existe no debate eleitoral em curso no país. E depois, o racismo não existe! Isso só mostra o tamanho do abismo que existe entre esses dois mundos. Concordo com o Emicida, o combate deve vir de dentro da escola… Mas que bem faria um choque dessas realidades!

[1] Link: http://www.sbt.com.br/jornalismo/noticias/44591/SP-Grupo-queima-dois-onibus-e-fecha-rodovia-Raposo-Tavares.html#.VBDth_ldXkX


Del

Rafael Del’Omo Filho. Bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e mestre em Sociologia pela mesma universidade. É amigo de Ricardo Festi desde a dura greve das universidades estaduais paulistas de 2004 em defesa da educação pública.

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Uma resposta a Um abismo e um desabafo…

  1. Heliana Castro Alves diz:

    Racismo, patriarcalismo e classe: três pilares do nosso sistema capitalista que se encontra agora na sua fase mais sórdida. Gostei do texto: o autor demonstra a sensação de impotência e raiva que a gente vive ao olhar para estas realidades: desde ouvir sua vizinha ser espancada, até encontrar uma criança – quase invariavelmente negra – pedindo esmola nas ruas. Ainda estamos vivendo as rebarbas das grandes navegações que inventaram uma tal de américa. Aliás, estes grandes navios não estão longe do discurso da jornalista Shesherazade. Um dia desses eu presenciei a cena de um louco no meio da rua encostando um canivete no pescoço de um menino negro que apenas pedia dinheiro ou um lanche. Lógico que nosso instinto é gritar para evitar uma tragédia, é gritar de raiva. E foi o que fiz, Sem nem ao menos perceber o perigo da situação, simplesmente voei para cima do louco e me coloquei entre a faca e o garoto que logo sai correndo e fugiu. Polícia? não tinha – devia estar nos morros fazendo a limpa da cocaína. Efeito Shesherazade.

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