Química Educação: pra QUEM te quero?

Por Rafael Del’Omo Filho*
 

Recentemente a atriz global Denise Fraga escreveu em sua coluna da Folha de São Paulo um artigo questionando o estudo de química nas escolas[1]. Prontamente, a Sociedade brasileira de química (SBQ) e profissionais da área manifestaram seu rechaço ao artigo da atriz. No entanto, se o texto de Denise tem algum mérito, é o de abrir um questionamento sobre o ensino básico. Debate que nós mesmos, professores, evitamos por vários motivos: sentimento de impotência, receios, corporativismo. No entanto, fingir que um problema não existe, não o resolve e, nesse caso, incorremos no perigo de sermos engolidos por uma reforma educacional desde cima sem nenhum diálogo com quem realmente vive a realidade educacional como foi em 1968-1971, em 1996 e em diversas medidas fatiadas adotadas pelos governos de turno.

.Embora o texto de da Denise se assemelhe ao de um aluno do ensino médio que não quer estudar, isso não desmerece todos os seus questionamentos acerca da decoreba e do “Aprende-se para esquecer”. O professor da UFPR Aldo J. Gorgatti Zarbin[2] e também da SBQ, desenvolve nessa linha: “Será que a indignação do seu texto, Denise, não deveria na verdade estar direcionada à ‘maneira’ pela qual alguns conteúdos são ensinados (decorar tabela periódica, platelmintos, etc)?”. E o professor sai em defesa da química para a “compreensão sobre os fenômenos cotidianos e as coisas que os rodeiam”, da química responsável pelos “grandes acontecimentos da história, desde o Big Bang – responsável pela criação do Universo -, passando pela formação das galáxias e planetas, pelo início da vida na Terra, pelo processo evolutivo que nos trouxe até aqui e, por todas as intervenções que a espécie humana realiza”. Estou longe do ensino médio há muito tempo e, como diz a Denise, o “aprendemos para esquecer” é verdadeiro, e não me lembro de ter aprendido uma química tão fascinante no ensino médio quanto àquela que assistia diariamente nos programas da TV Cultura o Mundo de Beakman e o Professor. No meu caso imperou a regras de três e o cálculo de massa molecular.

Questionar o método, a abordagem e o conteúdo não significa negar o ensino dessa disciplina. Ao contrário, acredito que o ensino de ciências é fundamental para realizar a obra incompleta da Filosofia em sua tentativa de romper com o mito e as explicações mágicas, para a realização do “esclarecimento” defendido pelos iluministas e para o avanço da racionalidade e do “desencantamento do mundo” de Max Weber. O fato é que um ensino direcionado exclusivamente ao vestibular impõe a sobreposição das fórmulas aos conceitos. Evidente que não se trata de um problema exclusivo da Química, lembro-me das músicas e dos inúmeros anagramas para decorar fórmulas de Física, as funções trigonométricas em Matemática e os componentes de um organismo em Biologia. Acredito que, futuramente, a humanidade possa olhar pro nosso sistema educacional e chamá-lo de tortura.

Poucos vão discordar da necessidade de uma reestruturação completa da educação brasileira. O que ninguém vai concordar é o que mudar. Isso porque diferentes visões de mundo e de sociedade passam por um projeto de educação. Partamos de algumas constatações: não há um tratamento isonômico entre as áreas do saber do ensino básico à pós-graduação. As regras da CAPES e de outras agências de fomento servem para beneficiar as “pesquisas operacionais” e sucatear as ciências básicas em geral (afinal, os cursos de licenciatura mesmo na área de química não recebem os mesmos investimentos de uma engenharia química) e, em particular, as ciências humanas. E não é por acaso e, sem querer, o professor Gorgatti nos dá o motivo: “No Brasil, o faturamento da indústria química no ano de 2012 foi de R$ 293 bilhões, um crescimento de 12,4% sobre o faturamento do ano anterior, que corresponde a 2,5% do PIB brasileiro (9,9% do PIB das indústrias de transformação), e que a coloca em sexto lugar no faturamento das indústrias químicas do mundo (atrás de China, EUA, Japão, Alemanha e Coréia, nesta ordem)”. É exatamente esse o motivo de se privilegiar cursos como as engenharias e sucatear as ciências humanas e as ciências básicas (ou tente procurar financiamento para uma pesquisa teórica sobre a teoria da relatividade e terá o mesmo destino de alguém que tenta sobreviver de pesquisa na área de História). Essa busca por um ensino cada vez mais técnico e utilitarista também atinge as humanidades no nível superior como nos cursos de Ciências Econômicas que de tão matematizados possuem mais disciplinas de cálculo do que de teoria econômica propriamente (os patrocinadores da Bovespa e do Itaú agradecem). Até as resistentes Ciências Sociais sofrem uma pressão para que os cursos de Sociologia se direcionem às pesquisas estatísticas de mercado e a Ciência Política para cálculos eleitorais e finalidades de consultoria.

Por mais que alguns queiram acreditar que a técnica, a ciência e os números são neutros, eles não são. Esse é um falso argumento ideológico que ignora que a razão instrumental nada mais é que um “mero adminículo da aparelhagem econômica” (Horkheimer e Adorno), um subsídio Não há o que se elogiar nos números bilionários citados por Gorgatti. Duvido que os trabalhadores da área fármaco-química tenham visto essa dinheirama. E a questão não é somente o volumoso lucro, mas o que se produz com ele. Esses dados não podem ser lidos isoladamente, sem ignorar outros como “O consumo de Ritalina no Brasil cresce 775% em dez anos”. A indústria bioquímica não produz somente cura, produz também o seu contrário, produz drogadição institucionalizada, entre tantas coisas nada bonitas de serem listadas. A lógica produtivista do capital explica porque se investe mais em pesquisa de cosméticos do que na cura da dengue. Os dados de suposto “interesse nacional” apresentado por Gorgatti representam, na verdade, o interesse da ínfima minoria da população que lucra com a doença.

Em nossa sociedade praticamente tudo gira em torno da produção, tudo é mercadoria ou passível de conversão. É a mercantilização da vida. A educação como um todo busca atender aos interesses da mercadoria; a lógica que aplica o MEC e o mercado (esse ente abstrato que regula nossas vidas) para a pesquisa superior e o ensino básico é a mesma. Há uma busca constante por um ensino cada vez mais especializado e cada vez menos universal. Nossa função não é formar cidadãos conscientes (conceito bonito que aparece em tantos PCNs), mas sujeitos passivos, treinar robôs para uma maldita prova que exclui a gigantesca maioria dos jovens do ensino superior público de qualidade. Quantas vezes um aluno pergunta “por que eu preciso saber isso” e a resposta automática é “para o vestibular”? A gente deveria ter ódio de dar uma resposta dessas! É reducionismo demais para o conhecimento. A escola precisa estar conectada a vida e não ao vestibular. Somente assim um aluno poderá compreender que os fenômenos da natureza e da vida social são parte de seu cotidiano e o ambiente escolar o espaço para elevar o entendimento dos fenômenos à sua essência e poder refletir sobre o mundo, o gênero humano e nosso futuro. E, no entanto, não é verdade que é só para o vestibular que serve o sistema educacional básico. Ele visa formar majoritariamente dois tipos de pessoas:

  1. Mão de obra semiqualificada que não precisa de muito mais que as principais operações matemáticas e um pouco de português para ler e escrever. Para essa finalidade está a maior parte da rede pública precarizada e sucateada. O objetivo não é o vestibular, afinal, nem há vagas para todos; mas a formação em massa de mão de obra barata para a grande indústria (além de servir como prisão-escola para a juventude de periferia).
  2. Mão de obra especializada capaz de dominar sua área para ocupar um outro espaço na divisão social do trabalho. Sua posição social pode fazê-lo crer ingenuamente ser muito diferente do item anterior. Mas só porque se apegou demais ao adjetivo e ignorou que o substantivo é o mesmo já que a essência é a mesma: ser mão de obra. Para essa finalidade está uma restrita parcela de escolas públicas e a maior parte do ensino privado destinado aos extratos superiores da classe trabalhadora e da pequena burguesia em geral.

Mas há algo em comum entre essas duas formações que é a não compreensão da realidade social ao seu redor. Nosso especialista será capaz de dominar os mínimos detalhes de sua área, mas incapaz de olhar ao seu redor e ver para o que ele mesmo serve. É capaz de lidar com o que há de mais avançado em nanotecnologia, mas não sabe a quem aquilo que faz serve, numa perspectiva mais ampla. Não conhece as cadeias de produção que o rodeiam.

Não a toa temos um ensino que privilegia um estudo aprofundado dos organismos dos platelmintos em detrimento da reflexão filosófica e de entender o seu papel no mundo. Fato facilmente comprovável pelas montanhas de dinheiro destinadas a cada área pelas agências de fomento de pesquisas ou pelas grades horárias do ensino médio deliberadamente alienantes (uma grande rede de colégios particulares adota uma aula por semana para filosofia e sociologia juntas). Não se trata de extinguir a química ou a física… Mas que elas (assim como todas) precisam ser repensadas no marco de uma reformulação geral da estrutura educacional que não busque formar meros apêndices da grande indústria, mas sujeitos capazes de compreender e intervir sobre os fenômenos naturais e sociais que nos rodeiam. Somente assim poderemos apresentar essas áreas do conhecimento não como uma necessidade avaliativa para promoção social, mas como o que realmente são, fascinantes.

 


Del

Rafael Del’Omo Filho. Bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e mestre em Sociologia pela mesma universidade. É amigo de Ricardo Festi desde a dura greve das universidades estaduais paulistas de 2004 em defesa da educação pública.

 

[1] Química, pra que te quero? Link: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/denisefraga/2014/08/1494462-quimica-pra-que-te-quero.shtml

[2] Química, como te quero! Link: http://www.jornaldaciencia.org.br/quimica-como-te-quero/

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