Alunos do ensino médio acompanham evento sobre 50 anos da ditadura na FCA

Fonte: site da FCA
Texto e fotos | Cristiane Kämpf
 

“Quais são os ‘cálices’ que ainda nos restam?”. A pergunta foi feita por professores de sociologia e filosofia aos alunos dos segundos e terceiros anos do Colégio Técnico de Limeira (COTIL) como tema para uma redação, parte do trabalho desenvolvido durante este primeiro semestre sobre os períodos históricos que antecederam e culminaram no golpe de 1964 no Brasil e os resquícios da ditadura civil-militar que ainda persistem na sociedade brasileira.

Aproximadamente cem alunos de diferentes escolas públicas e particulares de Limeira acompanharam o evento ’50 anos do golpe militar – repressão, memória e transição’ organizado ontem na Faculdade por docentes do COTIL e membros da Comissão Verdade e Memória Octávio Ianni, da Unicamp.

Conforme explica Carolina Messora Bagnolo, doutora em Educação pela Unicamp e professora de sociologia no COTIL há dois anos, os alunos do colégio também trabalharam em sala, antes do evento, com a música ‘Cálice’ de Chico Buarque e sua versão mais atual, criada pelo rapper Crioulo Doido, que fala justamente sobre o que ainda resta da ditadura em nosso país.

O evento, considerado um sucesso, permitiu o encontro e a interação entre representantes de três gerações: aqueles que sofreram na pele as arbitrariedades e crimes do regime ditatorial (como o jornalista Alípio Freire, ex-preso político e o Professor Caio Navarro de Toledo, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e membro da Comissão Verdade e Memória da Unicamp, que participaram da mesa de abertura ‘A longa transição: o que resta da ditadura?); filhos de ex-presos políticos (como alguns doutorandos e professores da Unicamp na casa dos 35 anos) e os estudantes do ensino médio, com idades entre 15 e 17 anos.

                Maria Vitória, Graciele e Matheus (da esq.para dir.) acompanharam o evento na FCA

Graciele Vella, 15, e Maria Vitória Bortolan Dantas, 16, alunas da Escola Jandira Antunes Rosa, avaliaram positivamente a chance de participar das palestras e conversas. “É uma ótima oportunidade de ganhar conhecimento mesmo estando fora da escola e os 50 anos da ditadura, muito provavelmente, será tema dos vestibulares e do Enem neste ano”. Para Maria Vitória, a censura continua nos meios de comunicação, por exemplo. “Só não parece tão descarada como na época da ditadura, mas ainda existe – quando, por exemplo, a TV ou os jornais não mostram o que deveriam mostrar.” As amigas ficaram particularmente impressionadas com a fala de Danielle Tega, membro da Comissão da Verdade Octávio Ianni e doutoranda em Sociologia no IFCH, que pesquisa narrativas literárias baseadas nas memórias de mulheres que participaram de diferentes formas de resistência à ditadura no país. “A figura da mulher como objeto sexual, por exemplo, continua muito forte atualmente”, dizem. “Acabou a ditadura, mas parece que as pessoas hoje não sabem aproveitar a liberdade que têm e todo mundo fica preocupado só consigo mesmo”, sentencia Graciele.

Matheus de Paula Silva, 16, aluno do 3º ano da Escola Trajano, disse que soube do evento por indicação de seu professor de sociologia e decidiu comparecer porque acredita que “conhecer História é uma forma de compreender o que somos hoje, então vir aqui é uma forma de saber o que eu sou e de onde eu vim….é entender um pouco mais sobre a história do nosso país e deste período tão nefasto que não recebe toda a atenção que deveria receber por nossa parte, os jovens. Acho que a gente vive numa democracia falha ou, como foi dito hoje, numa ditadura do capital.” Ele diz que vai prestar vestibular para Filosofia na USP e História na Unicamp e anseia por estar no ambiente universitário, que considera normalmente menos preconceituoso. “Aqui parece que ninguém liga se você está de chinelo ou usando uma camiseta mais velha. Na escola não é assim.”

Consequências da ditadura para a Unicamp

Criada em 1966, dois anos depois do golpe, acredita-se que a Unicamp não tenha sido alvo da ditadura como foram a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Brasília (UnB), que já contavam com associações e movimentos bem estruturados de alunos, docentes e funcionários que militavam e se mobilizavam contra o regime e, portanto, tiveram moradias estudantis invadidas e professores e funcionários presos dentro dos campi. Entretanto, parece não ser essa toda a história. A Comissão da Verdade e Memória Octávio Ianni se propõe a apurar casos de membros da comunidade acadêmica da Unicamp que foram afetados pelo regime dentro ou fora da Universidade, sofrendo demissões forçadas, prisões e torturas.

Em texto publicado no site Correio da Cidadania, em 30 de abril, o professor afirma que, por meio de suas Congregações, o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, o Instituto de Arte e a Faculdade de Educação da Unicamp aprovaram uma moção que solicita ao Conselho Universitário a revogação do título de Doutor Honoris Causa concedido pela Unicamp, em 1973, ao Coronel Jarbas Passarinho, então Ministro da Educação e Cultura do governo do general Emilio Garrastazu Médici e que, durante sua gestão, expulsou 55 estudantes de universidades públicas sob a alegação de que promoviam a “subversão” e a “agitação política”.

Organizadores do evento, membros da Comissão da Verdade e Memória da Unicamp e palestrantes convidados
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