Na “Mantega”: uma experiência de festa popular e democrática

Por Willians Santos*
 

O Carnaval passou, muitas coisas aconteceram desde então. Mas algo permance na memória dos moradores da região da Vila Industrial que nos ensina sobre a experiência de construção da democracia justo em um período no Brasil em que ocorre restrição deartigoWill direitos político e clamor pela volta da ditadura e da tortura.

Quem nunca foi a região da Vila Industrial na Zona Leste de São Paulo, aparecer por acaso e perguntar sobre a história do bairro aos seus moradores, certamente ouvirá entre os mais antigos que as casas foram construídas em mutirão no início dos anos 1990 e que a localidade convive com a violência e a pobreza. Mas, independentemente da geração, também irá saber da festa de Carnaval que ocorreu este ano, considerado marco histórico para a população local. Não são poucos os que descrevem nunca ter havido nada desse porte na história da comunidade reunindo diversas gerações e sem ser direcionada a apenas um grupo.

Do luto à Festa

No dia 2 de março de 2014, domingo, um inusitado Trio Elétrico denominado “Na Mantega” chamava a atenção de todos da Rua Marcondes Machado. Um sentimento de êxtase tomava conta dos moradores que o acompanhavam e estavam em sua frente, ao seu lado, por cima e atrás. No passinho faziam pela primeira vez esse tipo de festa na rua que, embora não estivesse enfeitada de diamantes, via amores passarem. Esse sentimento vinha da vontade de fazer parte de uma história, mas não como sujeitados, senão como protagonistas.

A Rua Marcondes Machado é um lugar mal falado e maltratado seja em razão do antigo tráfico de drogas, ou da recente série de violências policiais durante o mês de janeiro, sem contar a falta de especialidade médica nos postos de saúde, os transportes precários, as poucas praças e áreas de lazer.

RuaMarcondesMachado

Localização da Rua Marcondes Machado, na Vila Industrial, Zona Leste de São Paulo

“O Bloco Na Mantega, foi a negação da ausência de qualquer tipo festejo na região, durante o Carnaval, a festa mais popular do Brasil”, explica o jornalista e historiador Fernando Souza, um dos organizadores do evento e criador do nome.

Talvez como resposta à violação de direitos que a marcou e ainda a estigmatiza, a Vila Industrial levantou a poeira, deu a volta por cima, realizando uma festa popular e democrática que deve ser lembrada.

Os moradores resolveram fazer o corre, não se renderam aos atrativos dos milhares de blocos carnavalescos localizados na região central da cidade de São Paulo ou em bairros elitizados como a Vila Madalena, lugares aos quais os moradores da zona leste tem dificuldade de frequentar seja pela distância seja pelo custo. Assim, à  sua maneira, organizaram e resgataram a tradição do carnaval popular e democrático, baseado, no entanto, em seus referenciais: o axé que vem da Bahia com os migrantes, o samba que nasceu como um dos milhares de artefatos que compõem a cultura negra brasileira, o abadá que significa “camisa” na linguagem Iorubá, o Trio Elétrico, também de criação baiana, o energético com redbull tão comum entre jovens das periferias que frequentam os bailes funk, a cerveja, o acarajé, o espaço público livre de carros ou ônibus, os preços acessíveis dos alimentos etc.

 A organização

Antes de sair a festa, não faltou correria para organizar um evento profissa. A ideia de realizar um bloco de rua surgiu em uma mesa de bar, inspirado na música “Na manteiga” do grupo “Terra Samba” e que virou gíria entre os moradores que agora para fazerem algum comentário humorado complementam, “na mantega?”.

Os moradores mais empenhados com a organização fizeram que a CET modificasse o trajeto dos ônibus que passam por lá colocando cavaletes nos horários da festa (13h às 20h) no início e fim da rua. Claro, muitos “manos”, sábios como são, estacionaram seus carros atrás dos cavaletes evitando que outros carros de outros manos de outros bairros invadissem a passarela dos foliões, uma vez que a regra era que todos participassem, sem privilégios. A subprefeitura também foi agilizada, dela os moradores conseguiram autorização oficial fazendo que a festa inclusive fosse inclusa no calendário de Carnaval de Rua da Cidade de São Paulo. Conversaram ainda com o Serviço de Atendimento Medico de Urgência (Samu), embora o próprio departamento por meio de sua assessoria de imprensa avisou a todos que não tinha ambulância suficiente para disponibilizar nesta dia.

Foram ainda “convidados” pela Polícia Militar semanas antes da realização do evento a comparecer ao batalhão local e relatar as

características, horário e término da festa, além de outras informações. A instituição, apesar de contestar o evento, não compareceu ao local para qualquer tipo de ação de repressão à mobilização coletiva, como de costume nas festas de funk. Contudo, uma viatura passou no início do evento pegando os dados dos organizadores.

Banheiros químicos também estavam presentes na rua neste dia, mas, claramente, muitos moradores usaram os banheiros das próprias casas. E chama atenção o fato de não haver muros e chãos urinados, muito ao contrário do que ocorreu até nos blocos do centro da cidade.

Os organizadores conseguiram dos pequenos comércios locais que patrocinassem o aluguel do trio e em troca além de terem o nome do seu comércio estampado no abadá venderam seus produtos no dia. Ainda assim, não houve qualquer tipo de cerceamento aos comerciantes ‘informais’: vendedores de bebidas, alimentos, água etc., que mesmo sem contribuir com o custo da festa, puderam ficar em frente às próprias casas com seus produtos. Em suma: tudo nosso, tudo em casa.

O artista plástico e designer gráfico Gustavo Lima, morador e organizador do festejo, avalia: “A minha participação na organização do primeiro bloco de rua me fez perceber a carência da comunidade quando o assunto é integração social. Não quero dizer que revolucionamos o nosso bairro, mas foi muito bom ver os mesmos adolescentes que param o carro na esquina ao som de muito funk aparecerem no bloco com seus pais, irmãos e parentes. Eu vi famílias unidas pulando carnaval na rua, isso foi emocionante”.

Por fim, conseguiram ainda com que o tráfico local modificasse a localidade do trafego de entorpecentes.

Democracia popular

A festa foi democrática. E não uniu apenas as famílias. Por exemplo, apesar de uma tensão ou outra de gênero, sem agressões simbólicas ou físicas, muitos homossexuais e travestis que também moram no bairro ou conhecem pessoas ali não foram agredidos e festejaram ao lado de todos. Personagens de destaque em cima do caminhão e na rua interagiram com idosos, homens, mulheres, crianças, jovens, funkeiros e funkeiras, com pessoas de óculos, sem camisas, de calções curtos, tênis Nike etc.

Figuras públicas também deram as caras, até mesmo o subprefeito da região Nereu Marcelino do Amaral, além, de outras que constroem sua base política na localidade, como o deputado estadual Toninho Véspoli (Psol).

“Pô a festa foi bonita. Feito para a comunidade, né? Nunca tinha acontecido algo parecido aqui. Deu tudo certo. Não tinha ninguém armado, porque você sabe como é aqui. Não deu problema, foi bacana”, comenta o morador “Índio”.

Os foliões da Vila Industrial não usavam fantasias, mas animavam-se da mesma forma. A maioria usava o abadá do bloco, o qual não era sinônimo de exclusão, senão de identidade. Dançavam embalados por clássicos populares como “Rebolation” do grupo Parangolé e da própria música “Na manteiga” do Terra Samba. Mas, certamente, um dos auges ocorreu quando rolou a musica “Show das poderosas”, de Anitta – uma pequena surpresa aos festeiros pois não estava previsto na discotecagem do DJ Pantera (João Carlos) – fazendo que muitas mulheres e adolescentes além da comunidade gay entrassem em frenesi e acompanhadas pelos homens que apenas erguiam os braços e as mãos apontando os dedos para cima, dançaram como se não houvesse amanhã, como se não houvesse a segunda-feira, quando muitos dali voltariam ao batente.


*Willians Santos – Mestrando em sociologia pela Universidade Estadual de Campinas.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Artigos, Artigos de opinião. ligação permanente.

Deixar o seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s