Continuando as reflexões sobre as possibilidades emancipadoras da escola e da educação

Por S.B.O.*
 

Hoje li um belo texto produzido pelo meu amigo Ricardo Festi, em que ele responde à instigante pergunta que lhe foi feita por um aluno: “professor, por que você tem falado tanto em ditadura?”. Inevitavelmente, como pesquisadora e professora, ocorreu-me uma série de questões que julgamos interessante postar aqui para continuar a fomentar o debate. Este texto deve ser lido então, primeiramente, em diálogo constante com o texto anterior de Ricardo Festi.

Sugiro a todos aqueles que se interessarem em refletir um pouco mais sobre uma nova forma de organizar a escola (que a coloque em contato com a realidade social da luta de classes e justamente por isso a faça viver as contradições sociais e a posicionar-se efetivamente em um projeto societário libertador) que se dediquem a conhecer a experiência do Instituto de Educação Josué de Castro, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que agora vem reunida neste livro:

escola_em_movimento

Obviamente há toda uma discussão das contradições dessa experiência, pois se trata de uma escola inserida na realidade de um movimento social que busca coadunar a mudança da “forma escola” com a mudança social, mas ao mesmo tempo inserida em uma sociedade de classes, o que fica ainda mais nítido quando vamos pensar nas escolas dos assentamentos, muitas das quais são reconhecidas pelo Estado.

A discussão colocada por Ricardo Festi sobre o papel da escola e as possibilidades contraditórias que ela apresenta, sendo ao mesmo tempo um local de reprodução e de emancipação, é uma discussão extremamente útil, que nos tira da cômoda posição reprodutivista/estruturalista que enxerga a escola meramente como um “aparelho ideológico do Estado”, e nos coloca diante do desafio de pensarmos as possibilidades de emancipação oferecidas no seio da própria escola e da sociedade. A serviço de quais interesses e de que projeto societário a escola hoje se coloca? E a serviço de que projeto social ela pode se colocar e ajudar a construir? Nós como educadores não podemos nos furtar a essas reflexões, que devem ser feitas no chão das escolas e nos demais espaços formativos com nossos alunos e colegas de profissão.

Essas reflexões são ainda mais importantes no atual contexto neoliberal, que se apropria de conceitos como “autonomia” e “participação”, quando na realidade a pedagogia do “aprender a aprender” sintetiza uma concepção educacional voltada para a formação, nos indivíduos, da disposição para uma constante e infatigável adaptação à sociedade regida pela lógica destrutiva do capital[1]. Ou seja, não só a autonomia do professor foi subtraída nesse contexto, mas também a do aluno. Sem contar que o discurso da “autonomia” concretiza-se em um cenário de introdução da lógica de mercado na educação pública[2], em que princípios gerenciais da produtividade, da eficiência são injetados no aparelho do Estado, gerando situações nas quais escolas, professores e comunidade local são chamados a construir seus próprios projetos a partir da busca “autônoma” por financiamento privado de ONGs, empresas, fundações, voluntariado; são convocados a se responsabilizar unilateralmente pelo alcance das metas e resultados medidos pelos testes padronizados das avaliações externas em larga escala[3].

De forma aparentemente contraditória, junto com este significado específico de autonomia fortalece-se o controle central das políticas, porque o mando continua vindo de cima, e o interesse a ser perseguido continua sendo o do capital. A autonomia dos professores e dos alunos vai até certo ponto, até o ponto em que não questiona as bases estruturais de uma sociedade que necessita da desigualdade social para sobreviver.

Isso significa que ‘autonomia’, ‘participação’, ‘qualidade’, são conceitos que precisam ser definidos com referência a um projeto de sociedade, ou seja, não são questões simplesmente técnicas nem neutras como as políticas neoliberais fazem parecer. No contexto neoliberal e de reestruturação produtiva, interessa especialmente aos empresários e capitalistas a melhoria da “qualidade educacional”, vista como aquela capaz de responder à necessidade de formação de uma nova mão de obra. Ainda que os interesses capitalistas postulem à educação um papel além da formação de trabalhadores, vinculado também à “construção da cidadania” e à “gestão da pobreza” (basta ler as diretrizes do Banco Mundial pra a Educação[4]), tais papéis permanecem limitados aos interesses de adaptação e fortalecimento da ordem vigente, sem que se busque tocar nos determinantes estruturais da desigualdade social[5].

E ainda, voltando à autonomia em relação à aprendizagem do aluno, o que importa para a pedagogia do ‘aprender a aprender’ são as aprendizagens que o aluno realiza por si mesmo, tendo em vista as mudanças aceleradas da atual “sociedade do conhecimento” e é pra isso que eles devem ser preparados, pra conseguir se adaptar inclusive a situações de crise e desemprego! – o formuleiro Banco Mundial fala exatamente assim!

Ou seja, a autonomia assume os múltiplos sentidos acima (carregados de uma intencionalidade política específica) quando é significada pelos representantes dos interesses do capital.

Penso que a pedagogia do Paulo Freire define sim um significado para autonomia, claramente comprometido com a emancipação do oprimido. Então nesse sentido freireano, a autonomia não assume o mesmo sentido da autonomia do ‘aprender a aprender’ (apesar de alguns teóricos colocarem tudo no mesmo pacote: construtivismo, Escola Nova, Paulo Freire, pedagogia das competências, do aprender a aprender, como o próprio Saviani parece ter feito ao taxar o Paulo Freire de uma “escola nova popular”![6]). Não assume o mesmo sentido porque ele, Freire, traz como necessidade a reflexão sobre a totalidade da realidade (feita em comunicação constante com os alunos e suas condições de vida, e não como uma extensão de saberes de quem sabe para quem não sabe[7]), de forma a destrinchar suas contradições e possibilidades de superação.

E penso que é isso que a escola do MST busca fazer, inserir a escola nesse papel, ao aproximá-la da vida – coisa que a ‘forma escolar capitalista’ impede, porque afasta a escola das contradições sociais, e o máximo de aproximação da vida que essa escola capitalista permite é através de ‘estudos do meio’, pontuais, e não através de uma inserção orgânica que traga a vivência real das contradições e a necessidade de transformação.

Enfim, o texto do Ricardo Festi me fez ter vontade de escrever tudo isso, e inclusive pensar que talvez eu devesse ter menos preguiça de facebook e de outras redes sociais, blogs e toda essa parafernália internética, na medida em que elas podem servir como ferramenta útil pra fortalecer debates necessários (o problema nunca é a ferramenta em si, mas o uso que se faz delas: da mesma forma como o Adorno fala das possibilidades formadoras da televisão[8]).

E com certeza, a necessidade de discutir o golpe militar é sempre atual! Isso é perfeitamente válido no contexto atual das reformas educativas, que de forma aparentemente contraditória reforçam o discurso da autonomia, mas produzem um controle extremo sobre a prática docente, sobre o pensamento do aluno, da mesma forma como a empresa na era da acumulação flexível incentiva os trabalhadores a vestirem a ‘camisa da empresa’ e ‘participarem’ da gestão, mas suga ainda mais seu suor e ainda seu intelecto e capacidade criativa.

Como lembra Adorno, ainda no livro de sugestivo título Educação e Emancipação:

pessoas que se enquadram cegamente em coletivos convertem a si próprios em algo como um material, dissolvendo-se como seres auto-determinados. Isso combina com a disposição de tratar outros como sendo uma massa amorfa”.

Cabe à  educação aproveitar-se das possibilidades contraditórias inseridas no embate reprodução/emancipação (que tanto permeia a escola) para modificar isso de uma vez por todas, desfalecendo as condições favoráveis a novos Auschwitz e ditaduras! Penso que isso tenha que se dar no nível da construção de uma ‘contra-hegemonia’ (no sentido mesmo de Gramsci, que pensa a construção de um novo conjunto de valores que substituam os valores atualmente dominantes: a importância disso é tão grande que sem esse nível de construção, de nada adianta tomar o poder do Estado se este continuar alicerçado sobre a antiga hegemonia).

E a escola, HOJE (sem esperar primeiro a mudança radical, mas junto com ela) com certeza deve assumir sua parte nessa árdua, porém compensadora empreitada! Compensadora porque pode vir a oferecer respostas para muitas questões que tanto assolam quem trabalha no chão das escolas e das universidades, questões que igualmente assolam a classe-que-vive-do-trabalho, e todo um conjunto de pessoas marginalizadas das mais variadas formas pela atual configuração social.

Como professora, eu me empolgo muito com essa empreitada! Valeu pelo texto, caro Festi!


Sara2*Sara Badra de Oliveira é o doutoranda em Educação (UNICAMP) e professora do curso de Graduação em Pedagogia do PARFOR na PUC/Campinas.


Notas 

[1] Sobre críticas a essa pedagogia do aprender a aprender, ver o livro Sociedade do Conhecimento ou Sociedade das ilusões, de Newton Duarte. Sobre a lógica destrutiva do capital, ver o livro Para além do Capital, de István Mészáros.

[2] Ver as consequências perversas disso para a educação, que já têm sido exaustivamente documentadas, por exemplo, neste livro Vida e Morte do Grande Sistema Escolar Americano: como os testes padronizados e o modelo de mercado ameaçam a educação. Ver resenha em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-73302012000200017&script=sci_arttext

[3] Sobre essas questões, de como o atual uso das avaliações externas em larga escala (ex.: SARESP, Prova Brasil, e os índices por elas gerados, como IDEB e IDESP) amarra-se à “reforma empresarial” levada a cabo na educação pública, é interessante acompanhar os textos e o blog do professor da UNICAMP Luiz Carlos de Freitas: http://avaliacaoeducacional.com/

[4] Disponível no documento: Learning for all: investing in people’s knowledge and skills to promote development. WORLD BANK, 2011.

[5] Nesse discurso, a pobreza é gerenciada a partir da educação, como se a pobreza fosse um defeito remediável dentro da estrutura capitalista: fala-se em pobreza, não em desigualdade. Em outras palavras, a crise educacional, ao invés de decorrência histórica da crise econômica e da pobreza, transforma-se em causa dos problemas econômicos e sociais. Por essa operação lógica, a educação torna-se responsável por dar conta desses problemas, por meio dos fortes lemas que depositam na educação as possibilidades de que todos ascendam a uma genérica “vida melhor”: basta esforçar-se, qualificar-se, tornar-se empregável.

[6] No seu livro Escola e Democracia.

[7] Ver livro de Paulo Freire: Extensão ou Comunicação.

[8] Capitulo “Televisão e formação”, do livro Educação e Emancipação.

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