O mundo do labor na era das rebeliões: entrevista com Ricardo Antunes

Fonte: Viomundo

por Luiz Carlos Azenha

O professor Ricardo Antunes é um dos maiores especialistas brasileiros no mundo do trabalho.

É uma importante voz na oposição ao projeto de lei 4.330, do deputado Sandro Mabel (PMDB-GO) que, se aprovado no Congresso, vai permitir a terceirização em praticamente todas as atividades econômicas do Brasil.

Notem como, numa entrevista ao site do Instituto Humanitas Unisinos, Antunes definiu o “labor” dos latino-americanos, que está no título de um dos livros dele, O Continente do Labor:

 ”O que é o labor? É o trabalho como sinônimo do sofrimento, que não envolve a criação. Os termos em inglês nos facilitam o entendimento. Quando falamos em work nos referimos a um trabalho que tem um sentido de construção da vida humana, de criação de bens socialmente úteis. Quando falamos em labor, nos referimos ao lado da exploração do trabalho. E a expressão “continente do labor” associada à América Latina serve para mostrar que fomos “concebidos” desde o início da colonização e da montagem do sistema de produção colonial como o continente da exploração. Por isso que a América Latina é, ainda hoje, o continente da superexploração do trabalho. Mas esse continente e seus povos estão dando sinais de que não aceitam mais esses saques, esse vilipêndio, essa superexploração intensificada do trabalho. Somos o continente do massacre, mas também da rebelião; do saque, mas da luta; da escravidão, mas que luta pela felicidade social; somos o continente da exploração, mas também da revolução”.

Antunes tem uma visão muito peculiar sobre o atual momento da política mundial e as consequências para os trabalhadores: numa ponta, o capitalismo financeiro trabalha com “capital fictício”; na outra, com a exploração sem limites da mão-de-obra. Duas questões, dentre muitas outras, contribuíram para esta conjuntura: o desmanche da União Soviética e sua esfera de influência e o capitalismo estatal chinês, que incorporou ao mercado de trabalho milhões e milhões de pessoas que antes viviam no campo.

Não é por acaso, digo eu, que os Estados Unidos ajudaram a desenvolver técnicas de desobediência civil adequadas às “revoluções coloridas”, que ajudaram a promover no Leste europeu para “liberar” mão-de-obra barata. Provavelmente quem fez isso observava um mapa da demografia local e sabia que sociedades repletas de jovens E de demandas sociais eventualmente explodem em mudanças impossíveis de prever. Se as mudanças são inevitáveis, devem ter pensado em Washington, é importante estar preparado para influenciá-las.

O professor Antunes acredita que estamos em plena era de rebeliões, quando todas as janelas estão abertas. Tanto podemos evoluir para um período revolucionário quanto para a ascensão do fascismo, diz ele. Há uma certeza, afirma Antunes: boa parte da população está consciente de que o que está aí não servirá à Humanidade no futuro. Muito disso tem a ver com as frustrações, insatisfações e promessas não cumpridas do mundo do trabalho pós-neoliberalismo.

Vale a pena ouvir os dois primeiros trechos da entrevista de Ricardo Antunes ao Viomundo, que só foi possível graças à generosa contribuição de nossos assinantes. Eles compartilham gratuitamente conteúdo exclusivo com todos os demais internautas.

Da entrevista participou o repórter Padu Palmério.

Trecho:

1% ganham e 99% pagam. 600 transnacionais dominam o mundo. Estamos vivendo uma era de rebeliões. Elas são multiformes. Qual é o traço comum entre todas elas? O nosso espaço é a praça pública, não é o Parlamento. Aliás, quando chegam perto do Parlamento é para invadir. O país pode estar em levante mas isso não afeta as eleições, porque grande parte dessa juventude tem uma descrença completa das eleições, não vai votar!

Ricardo Antunes é professor titular de sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), organizou os livros Riqueza e miséria do trabalho no Brasil (2007) e Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual (2009). É autor, entre outros, de Adeus ao trabalho?Os sentidos do trabalho (1999) e O caracol e sua concha (2005), além de O continente do labor.

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