Novo critério de avaliação aponta aumento da pobreza no Brasil

Um novo critério proposto por pesquisadores para analisar a pirâmide populacional brasileira resultou num aumento das suas extremidades, mais ricos no topo e mais pobres embaixo, consequência de um aumento da desigualdade social. Este novo método de análise, que leva em consideração a renda, a escolaridade, o acesso aos bens e a região (os dados que o governo trabalha levam em consideração apenas a renda), vai na contra-mão da euforia do governo brasileiro acerca da constituição de uma nova classe média. Apesar de seus objetivos mercadológicos, essa nova análise permite retratar melhor este “novo” Brasil em que práticas e situações que antes eram privilégios das classes dominantes (como o consumismo, por exemplo) agora fazem parte de todas as camadas sociais. O texto ajuda ao professor problematizar as atualíssimas discussões sobre a “nova classe média”, o “Brasil potência”, as políticas de transferência de renda etc.

Veja também o gráfico de projeção das classes sociais em 2014.

Nova pirâmide social brasileira tem mais 16 milhões de pobres

Fonte: O Globo. De Sergio Vieira e Cássia Almeida.

RIO – Olhando para além da renda da população, a nova classificação socioeconômica do país, montada pelos pesquisadores Wagner Kamakura (Rice University) e José Afonso Mazzon (FEA-USP), leva em conta renda, escolaridade, posse de bens duráveis, acesso a serviços públicos, entre outros, num conjunto de 35 indicadores. Esses novos critérios fizeram crescer a parcela dos pobres e extremamente pobres. Pelo modelo — que será usado a partir do ano que vem por empresas de pesquisa e publicidade para dirigir estratégias de venda — há um incremento de 13,94 milhões de brasileiros (7,3%), para 29,6 milhões (15,5%), na base da pirâmide social. São pessoas que, com renda média familiar de R$ 854 (melhor que na classificação vigente), têm pouco acesso a bens duráveis e serviços públicos, além de menor escolaridade. Cerca de 60% desse estrato social têm apenas até três anos de estudo. E o número de banheiros por domicílio não chega a um.

Como ficam as classes sociais segundo este novo modelo

Como ficam as classes sociais em 2014 segundo o novo modelo.

A nova divisão da sociedade em classes, que também considera a região e a composição familiar, não será adotada pelo governo para definir políticas públicas. A repartição social permanecerá determinada somente pela renda, segundo o ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Marcelo Neri. Para as empresas, a classificação substitui o atual Critério Brasil, adotado pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep).

— A realidade da sociedade brasileira mudou muito. Quando os critérios foram estabelecidos entre as décadas de 1970 e 1980, o consumo se concentrava na elite. Agora, reunimos mais indicadores para saber qual o perfil de cada classe e o que ela consome. Empresa que vende xampu não pode direcionar sua campanha só para a elite. Se quiser crescer as vendas, vai tentar atingir a classe que conseguiu aumentar sua renda — explica Kamakura.

Pelo novo levantamento, a desigualdade ainda prima. Segundo Kamakura, 54% do consumo total vêm das classes 1,2 e 3, ou seja, as mais abastadas, com a renda variando de R$ 4.600 a mais de R$ 17 mil.

— No seguro-saúde, por exemplo, as três faixas mais ricas respondem por 74% do consumo — cita Mazzon.

Desigualdade no consumo

Para desenvolver o modelo de estratificação, os professores se valeram do conceito teórico da “renda permanente”, ou seja, a capacidade que a família tem de manter seu padrão de consumo. Isso seria mais importante do que a renda corrente, aquilo que se recebe do trabalho, dos alugueis e dos investimentos.

— Um médico tem mais chance de manter a renda que um trabalhador sem muita escolaridade. Uma família mais velha, com a casa montada, vai gastar menos com bens duráveis — afirma Kamakura.

Segundo Neri, a vantagem de usar só a renda, como faz o governo, é poder trabalhar de maneira simples e direta os dados que mostram o bem-estar das famílias e que serão usados para a formulação de políticas públicas.

— É natural reavaliar os critérios. Como mudou a fita métrica (o corte da renda ficou maior), os modelos perdem comparabilidade entre si, mas ganham fidedignidade — diz Neri.

Os professores também alteraram a fonte de dados. No Critério Brasil vigente, feito pelo Ibope, a pesquisa é concentrada em nove regiões metropolitanas. A nova estrutura tomou por base a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2009, feita pelo IBGE em todo o Brasil. Assim, foi possível ver a concentração de consumo por categoria de produtos ou serviços.

Uma análise do Índice de Gini (medida de 0 a 1, que mede a concentração) mostra que itens como cereais, farinhas, óleos e gorduras estão presentes de forma igualitária em todos os sete estratos da população. O consumo de carnes, pescados, aves e ovos (0,14) e de fumo (0,15) também não é desigual entre as classes. Já ter casa própria, plano ou seguro-saúde ou frequentar escolas privadas são consumo para poucos. Nesses casos, a concentração é gigantesca, com o Índice de Gini ultrapassando 0,70, bem próximo de 1, a máxima concentração.

Mais ricos no topo

Pelo novo critério, a renda de quem é considerado classe E mais que duplicou: de R$ 415 para R$ 854. Já o corte para se identificar os mais ricos passou de R$ 11.480 para R$ 17.434. Eles, que hoje são 1,8% da população, passam a ser 2,8%. Já a classe média, que responde por 58% dos brasileiros, cai para 55,9%.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/nova-piramide-social-brasileira-tem-mais-16-milhoes-de-pobres-9498814#ixzz2bryC1bbH 
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Uma resposta a Novo critério de avaliação aponta aumento da pobreza no Brasil

  1. Lucia diz:

    Fonte: O globo. Gera dúvidas desse aumento, afinal, são a oposição e uma pesquisa mais profunda, vê-se a diminuição da miséria.

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