Ecos da modernidade, ensaio de antropólogo francês

David Le Breton / fonte: Aliás – Estadão (01 de junho 2013)

O barulho é um som de valor negativo, uma agressão ao silêncio ou simplesmente à tranquilidade necessária à vida em comum. Causa um incômodo àquele que o percebe como um entrave a seu sentimento de liberdade e se sente agredido por manifestações que não controla e lhe são impostas, impedindo-o de repousar e desfrutar sossegadamente de seu espaço. Traduz uma interferência dolorosa entre o mundo e o eu, uma distorção da comunicação em razão da qual as significações se perdem e são substituídas por uma informação parasita que provoca desagrado ou aborrecimento. O sentimento do barulho surge quando as sonoridades ambientes perdem sua dimensão de sentido e se impõem como uma agressão irritante, da qual não há como se defender. Mas o sentimento do barulho põe em relevo, antes de mais nada, um contexto social e a interpretação que o indivíduo faz do ambiente sonoro em que se encontra. Às vezes, o mesmo som é inversamente percebido por outra pessoa como um invólucro sonoro que lhe é indiferente. O barulho não tem objetividade; trata-se de mera sensibilidade individual.

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No limite, o barulho constante das ruas, absorvido pelo indivíduo como algo alheio a sua influência, acaba sendo abafado, ao passo que os excessos sonoros dos vizinhos são percebidos como indesejáveis e como violações da intimidade pessoal. O barulho é uma zona sensível da sociabilidade. Na França, muitas das queixas registradas nas delegacias de polícia referem-se a conflitos entre vizinhos em torno da questão do barulho: televisão, rádio, dispositivos musicais em volume alto, festas noturnas, etc., que invadem a intimidade. A vítima do barulho se sente expulsa da própria casa, invadida, seu espaço interior destruído. Ela é forçada a recuar até suas últimas trincheiras, e o barulho se impõe então como uma forma insidiosa de violência. E, reagindo a essa sensação de estar sendo atormentada, vez por outra a vítima toma uma atitude radical. Muitos incidentes que chegam às páginas dos jornais, um dos mais recentes ocorrido em São Paulo, atestam isso, e o fenômeno está presente em diversas sociedades: os homens (nunca, ou quase nunca, as mulheres) sentem-se incomodados com o barulho e, sem conseguir sensibilizar os vizinhos e fazer com que abaixem o som, acabam pegando uma arma e atirando contra eles ou contra os arruaceiros que teimam em ficar escutando música no último volume bem embaixo de sua janela, às vezes em plena madrugada. Uma violência responde à outra, mas sem nenhuma nuance, traduzindo, todavia, o sentimento de impotência da pessoa que se encontra à mercê do barulho e também seu sentimento de não poder suportar tamanha invasão de si. O conto de Kafka A Construção ilustra muito bem essa violência do barulho que acaba por tornar impossível qualquer repouso, inviabilizando mesmo a própria existência. Mas os barulhos produzidos por nós mesmos não são percebidos como incômodo: eles têm um sentido. Quem faz barulho são sempre os outros.

O sentimento do barulho se difundiu sobretudo com o nascimento da sociedade industrial – e a modernidade o intensificou de maneira desmesurada. O desenvolvimento técnico caminhou de mãos dadas com a penetração ampliada do barulho na vida cotidiana e com uma crescente impotência para controlar os excessos. Novos sons adentraram os apartamentos com o rádio, a televisão, os eletrodomésticos, o telefone, os aparelhos cada vez mais possantes de reprodução musical, etc. E isso no interior de apartamentos ou casas que não foram projetados para represar esses ruídos, sem os impor à vizinhança, degradando assim a tranquilidade do lar. Do mesmo modo, as casas suportam mal as infiltrações sonoras provenientes das ruas adjacentes. Embora sejamos capazes de abstrair os outros sentidos, espantando um odor ou fechando os olhos diante de um espetáculo pouco agradável, a audição resiste a tudo. O sentimento do barulho é a consequência disso.

À profusão de barulhos produzidos pela cidade, à circulação incessante dos automóveis, nossas sociedades acrescentam novas fontes sonoras com os televisores ligados e a música ambiente que toca no interior das lojas, dos cafés, dos restaurantes, dos aeroportos, etc., como se fosse preciso afogar permanentemente o silêncio em lugares onde a palavra se troca no interior de um universo de sons que ninguém escuta, que enervam às vezes, mas que teriam o benefício de emitir uma mensagem tranquilizante. Antídoto ao medo difuso de não se ter o que dizer, infusão acústica de segurança cuja súbita ruptura provoca um desconforto redobrado. A música ambiente tornou-se uma arma eficaz contra certa fobia do silêncio. Esse persistente universo sonoro isola as conversas particulares ou encobre os devaneios, confinando cada um em seu espaço próprio, equivalente fônico dos biombos que encerram os encontros em si mesmos, criando uma intimidade pela interferência sonora assim forjada em torno da pessoa.

A modernidade inventou a constância da sonoridade e a capacidade de propagá-la por meio de alto-falantes. O sujeito que não suporta o silêncio tem a oportunidade de recorrer, na totalidade de fatos e gestos da vida cotidiana, a um ruído de fundo. Ao chegar em casa, pode ligar seu rádio ou sua televisão, pode assistir um vídeo ou escutar uma fita cassete ou um CD. O barulho tem um efeito narcótico tanto no interior do apartamento, como no meio da rua, ele tranquiliza quanto à permanência de um mundo sempre incólume. Projeta uma linha de audição controlável e reconhecível, à maneira de uma tela que põe fim à turbulência e à profundidade perturbadora do mundo.

Nossas cidades são particularmente vulneráveis às agressões sonoras. O barulho se propaga e atravessa grandes distâncias. As operações de liquidação do silêncio abundam. Não são deliberadas, mas agregam os barulhos do meio urbano ou simplesmente técnico; sitiam os lugares ainda preservados, incultos, abandonados à pura gratuidade da meditação e do silêncio. A modernidade assinala uma tentativa difusa de saturação do espaço e do tempo por uma emissão sonora sem fim. Sendo uma zona não explorada, em estado de suspensão, livre de uso, o silêncio provoca uma reação de preenchimento, de animação, que tem por intuito dissolver a provocação do “inútil” por ele acobertada. Pois, aos olhos de uma lógica produtiva e comercial, o silêncio não serve para nada, ocupa um tempo e um espaço que poderiam se beneficiar de um uso mais rentável. Para a modernidade, o silêncio é um resíduo à espera de utilização mais lucrativa, assemelha-se a um terreno baldio no centro da cidade, representa uma espécie de desafio lançado ao imperativo de torná-lo rentável, de fazê-lo retribuir com uma utilidade qualquer, pois, enquanto não o faz, o silêncio é pura perda. Anacrônico, um domínio onde o barulho ainda não penetrou, o silêncio é um arcaísmo que precisa encontrar seu remédio. Soa como uma pane ensurdecedora do sistema. O silêncio é um resto, aquilo que o barulho ainda não conseguiu invadir ou degradar, aquilo que os meios ou as consequências das técnicas ainda poupam.

O contexto barulhento de nossas sociedades e a transformação que as sensibilidades coletivas sofreram nesse aspecto ao longo dos últimos anos induzem a uma irritação crescente com o barulho. Uma legislação mais atenta o regulamenta e procura contê-lo dentro de limites precisos. A intenção é proteger os que trabalham em ambientes sonoros insalubres ou manipulam ferramentas barulhentas, atenuar os ruídos dos canteiros de obras a fim de reduzir a poluição sonora para os habitantes das redondezas, regular a circulação de cargas nas cidades, restringindo-a a horários específicos, oferecer uma estrutura jurídica capaz de lidar com os conflitos entre vizinhos quando da utilização imprópria de instrumentos sonoros ou da ocorrência de manifestações inconvenientes (algazarra noturna, por exemplo). Nos planos de urbanismo é maior a preocupação em estabelecer zonas de silêncio. As pessoas com frequência se mobilizam contra projetos envolvendo a construção de estradas, aeroportos, etc., que desfigurariam a acústica de um determinado lugar. E a legitimidade social de tais reivindicações já não sofre muita objeção. O direito ao conforto acústico (a preservação de parte do silêncio) tornou-se uma zona sensível da sociabilidade, um valor unânime em resposta à amplificação ambiental do barulho. O mais extraordinário é que, assediado de todos os lados, o silêncio pouco a pouco se tornou uma referência comercial de peso na promoção de produtos, regiões e passeios turísticos. As empresas e as agências publicitárias também se deram conta da necessária valorização do silêncio numa vida cotidiana perseguida pelo barulho.

Atualmente, valorizamos o silêncio do motor de um carro, dos eletrodomésticos, dos cortadores de grama, etc. O argumento é um eficaz recurso de marketing. O setor de insonorização cresceu muito nos últimos anos. As pessoas isolam acusticamente os apartamentos, os escritórios, os ateliês… Não se tolera mais que o motor do carro, do avião ou do trem atrapalhem as conversas. Cada um se esforça, em princípio, para reduzir suas produções sonoras e espera, em retribuição, que os vizinhos tenham a mesma preocupação. O silêncio torna-se riqueza moral, comercial, turística, ecológica, etc. Espécie em vias de extinção, seu preço sobe diariamente e mobiliza uma atitude de preservação mais ou menos eficaz e interessada. Por outro lado, centenas de milhões de pessoas que gostam de caminhar na natureza deixam as cidades em busca de paz, de silêncio, de conversas, de descobertas, de lentidão. Querem deixar para trás o barulho e os ritmos que lhes são impostos na vida atual, encontrando, por fim, o apaziguamento e a interioridade. /Tradução de Alexandre Hubner

* David le Breton é professor de sociologia na Universidade de Estrasburgo (França). Autor, entre outros, de Du Silence (Métailié). Suas últimas obras traduzidas no Brasil foram Antropologia do Corpo Modernidade (Vozes), As Paixões Ordinárias (Vozes) eAdeus ao Corpo (Papirus). Escreveu este ensaio especialmente para o Aliás.

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