As cotas derrubam o discurso da meritocracia?

Ainda é muito cedo para afirmar que os estudantes universitários cotistas tem o mesmo desempenho que os não cotistas. Trata-se de uma questão complexa, com resultados ainda parciais, e é preciso paciência para uma abordagem nacional desta política ao longo da década. No entanto, algumas pesquisas possibilitam questionar o velho discurso de defesa da meritocracia, como esta da Unifesp que reproduzimos logo abaixo.

Para nós professores de Sociologia, que temos a tarefa de confrontar o senso comum com os resultados científicos, esta notícia ajuda na elaboração de atividades ou aulas sobre racismo, cotas, educação ou políticas públicas. 

Na Unifesp, cotistas e não cotistas têm média igual

CARLOS LORDELO E ALINE PORFÍRIO

Fonte: Agência Estado

Os alunos cotistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) tiveram média 0,06 ponto (em uma escala de zero a dez) inferior à dos não cotistas em 2012 – diferença de apenas 1,26%. A distância entre as notas foi maior no câmpus da capital (6,65%), onde funcionam cursos como Medicina e Enfermagem. Na Baixada Santista, por outro lado, o desempenho dos beneficiários da política afirmativa foi 8,71% superior ao dos demais colegas.

O levantamento, feito pela Pró-Reitoria de Graduação e obtido pelo jornal O Estado de S. Paulo, leva em conta a média ponderada de todos os 9.671 estudantes matriculados em 2012. Desses, 669 (7,22%) eram cotistas. Neste ano, a instituição guardou 15% das vagas dos processos seletivos para quem cursou o ensino médio na rede pública. A reserva crescerá até atingir 50% em 2016, como prevê a Lei de Cotas.

Diferentemente da atual legislação, a política adotada pela Unifesp de 2005 a 2012 não considerava o critério renda. Do total de vagas abertas anualmente, 10% eram reservadas para candidatos que se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas e haviam cursado o ensino médio em escolas públicas.

“A concorrência entre esse grupo de alunos era bem superior à do sistema universal”, diz a pró-reitora Maria Angélica Minhoto. “Isso teve como consequência a supersseleção de ingressantes cotistas, o que possivelmente favoreceu a existência de condições similares para o desempenho acadêmico.”

Lei sancionada em agosto pela presidente Dilma Rousseff determina que até 2016 metade das vagas das federais de ensino superior seja ocupada por ex-alunos da rede pública. Dessas, metade estará guardada para estudantes com renda familiar igual ou inferior a 1,5 salário mínimo por pessoa (R$ 1.017). Haverá ainda uma espécie de subcota para a soma de pretos, pardos e indígenas, conforme a distribuição desse grupo na população de cada Estado – em São Paulo, esta taxa é de 35%.

Maria Angélica acredita que a adequação à lei vai alterar significativamente o perfil dos alunos, principalmente nos cursos mais concorridos. “Serão exigidos esforços adicionais e já estamos negociando e cobrando do Ministério da Educação mais recursos materiais e humanos para enfrentar questões relativas à permanência estudantil.”

Segundo a vice-presidente da Associação dos Docentes da Unifesp (Adunifesp), Virginia Junqueira, a pesquisa mostra que o cotista “se esforça tremendamente para acompanhar o curso”. Para ela, os professores terão de se adaptar à chegada de mais alunos da rede pública. Para o professor do Departamento de Microbiologia, Imunobiologia e Parasitologia Renato Mortara, haverá queda no nível acadêmico dos alunos. “Essa diferença de notas me preocupa e tende a crescer.”

Santos

Na Unifesp, o câmpus da Baixada Santista é o único no qual os alunos cotistas têm desempenho superior ao dos não cotistas. Lá, a diferença de notas chega a 8,71%. Essa também é a unidade com menos estudantes beneficiados pela política afirmativa: só 80 dos 1.523 matriculados em 2012 – 5,25% do total.

Em Santos, funcionam sete cursos: Educação Física, Fisioterapia, Nutrição, Psicologia, Serviço Social e Terapia Ocupacional, além do bacharelado interdisciplinar em Ciência do Mar.

Para a fisioterapeuta e professora Stella Peccin, que dá aulas em todos os cursos da unidade, os bons resultados são fruto do estímulo ao cotistas.

“Usamos meios e projetos para que os estudantes se sintam estimulados a buscar informação e trabalhar em grupo, dissolvendo dessa forma eventuais dúvidas”, diz.  Buscamos sempre equacionar o padrão para mais, nunca para menos.”

Segundo cotistas ouvidos pela reportagem, passar no vestibular é mais difícil do que acompanhar o curso. Aluno do último ano de Psicologia, Carlos Eduardo Costa, de 27 anos, diz que chegou “defasado” para a seleção. “Mas, quando entrei na universidade, notei que outros colegas tinham dúvidas em algumas disciplinas iguais às minhas. Ter dificuldade não é algo exclusivo de cotista.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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