Eleições 2012 e Lulismo: notas para uma avaliação

Por Ricardo Festi

Em períodos de eleições municipais, os dados gerados pelas pesquisas e pelos resultados nos permitem abrir discussões interessantes com nossos alunos. Além da necessária avaliação dos resultados, fugindo do senso-comum do tipo “Dilma ganhou as eleições em 2010 por causa dos nordestinos do bolsa família” (sim, pasmem, mesmo depois da grande mídia ter desmentido recorrentemente essa calúnia racista iniciada pelo Twiter por uma estudante paulistana, ainda a ouço saindo da boca de alguns alunos), e esclarecendo de fato o real peso político e eleitoral de cada partido em nosso país, as eleições também nos permitem alçar reflexões mais profundas. Este pequeno artigo pretende apontar possíveis discussões a partir dos resultados das eleições municipais.

Dentre elas, penso que a mais interessante seja o que se convencionou chamar de “lulismo”. Para isso, temos que ter em mente que nossos alunos tinham entre 5 a 8 anos de idade quando Luis Inácio Lula da Silva ganhou a Presidência da República em 2002. Ou seja, estamos lidando com uma geração formada com o PT do governo federal, do mensalão, do Bolsa-Família e não o PT das “origens”, dos movimentos sindicais, das greves dos anos 1980 e da disputa eleitoral de 89 contra Collor. Neste novo cenário, é compreensível que não saibam a diferença entre “direita” e “esquerda”, já que vivem num país em que o capitalismo foi “modernizado” por um ex-operário, assumindo discursos e práticas que antes não eram seus. O papel do educador e do sociólogo está justamente em desnaturalizar o que parece natural, problematizando as questões latentes e desconstruindo o senso-comum. Neste caso em específico, devemos fundamentar o processo histórico que levou aquilo que temos hoje.

Se Lula foi o grande vitorioso nestas eleições municipais, como afirmaram os principais meios de comunicação, intelectuais e analistas políticos, justamente pelo fato do seu candidato ter ganho nada mais nada menos que a principal cidade do Brasil – com o maior colégio eleitoral, o maior orçamento e os problemas mais complexos -, cabe então começarmos por uma análise das eleições em São Paulo.

1. As eleições municipais de 2012

Para analisar a vitória de Fernando Haddad (PT) contra José Serra (PSDB), destacamos o mapa eleitoral da cidade. Desde 2006, encontramos em São Paulo uma divisão geográfica entre zonas petistas (periferia e setores de menor renda), zonas anti-petistas (centro e maior renda) e zonas em disputa (o centro expandido). É importante destacar os perfis dos eleitores nos quesitos renda, cor e idade. Vejam os mapas abaixo:

Mapa da votação:

Distribuição por Renda per capita:

Distribuição por cor e concentração de idosos:

Um comparativo entre os mapas eleitorais de 2008 e 2012 em São Paulo:

Ainda sobre o segundo turno da eleição municipal de São Paulo, vale destacar algumas questões para explicar a vitória de Haddad: 1) na zona petista, que soma 38% do eleitorado paulistano, Serra não conseguiu mudar a imagem de que governa para os ricos; diante da alta aprovação dos governos de Lula e Dilma, padrinhos de Haddad, ficou fácil para o PT vencer nessas regiões. 2) na zona anti-petista, a parte mais rica da cidade e onde mora metade do eleitorado – é onde os candidatos do PT perderam as últimas quatro eleições majoritárias -, Serra venceu por uma diferença muito pequena, sendo que em algumas áreas perdeu para o candidato petista: “isso indica que Haddad conseguiu seduzir muitos eleitores que, na média, tem renda duas vezes e meia mais alta do que os da zona petista. Seja pelo título de professor da USP, ou por ser neófito em eleições, Haddad conseguiu manter uma rejeição (36%) mais baixa do que a de Serra (40%) nas áreas centrais e ricas da cidade”, segundo Toledo (Estadão, 28 de outubro de 2012). Parece ter acertado Lula no discurso pelo novo contra o velho Serra que abandonou a prefeitura e o governo estadual para seus “objetivos pessoais”.

Para uma análise mais apurada das eleições municipais de 2012 no cenário nacional, sugiro os próximos três gráficos retirados do UOL Eleições.

O primeiro refere-se ao número de prefeituras ganhas pelos maiores partidos políticos. Fica claro que o PMDB e PSDB, apesar de manterem a liderança no “ranking”, perderam prefeituras nas eleições deste ano, enquanto PT e PSB cresceram em relação a 2008.

Os dois próximos gráficos dão com precisão o peso político e eleitoral de cada partido no cenário nacional. O primeiro leva em consideração o número de eleitores e o segundo o orçamento que cada partido administrará nos próximos quatro anos. Fica evidente um cenário mais favorável para a disputa em 2014 para as forças que estão hoje no governo federal coligados com Dilma Rousseff. Mas é claro, que até lá, muita coisa pode acontecer.

O que podemos concluir com os dados de São Paulo é que o PT tem sido nestes últimos anos hegemônico nos setores mais pobres da população. Sua dificuldade esteve em ganhar os votos das classes médias, ultrapassando o peso eleitoral da oposição de direita (PSDB, DEM, etc.) entre estes eleitores. Entretanto, esse quadro eleitoral que apresentamos acima, nem sempre foi assim em São Paulo e no cenário nacional. É aqui que podemos encontrar uma possível explicação para o “lulismo”.

2. O lulismo na visão de André Singer

Para uma análise do “lulismo” e das razões do peso político e eleitoral do PT hoje, vale analisar estes gráficos que retiramos de um artigo do cientista político e professor da USP André Singer. Trata-se de “Raízes sociais e ideológicas do lulismo”, publicado em 2009 pela revista “Novos Estudos Cebrap”, n. 85. Neste artigo, o autor defende que em 2006 ocorreu no Brasil um “realinhamento eleitoral”, cristalizando o que chamou de “lulismo”. Em sua definição, “lulismo” é o encontro de uma liderança, a de Lula, com uma fração de classe, o subproletariado, por meio do programa de combate a pobreza (através de uma política de alimentação do mercado interno e melhoramento do padrão de consumo) sem confrontar os interesses do capital. Ou seja, o “lulismo” seria uma espécie de modernização conservadora, isto é, de reformas sociais pontuais e limitadas sem rupturas com a ordem vigente.

Sociologicamente, André Singer utiliza a mesma categoria de subproletariado formulada por Paul Singer (1981) nos anos 1980, ou seja, ele não seria a fração do movimento operário organizado nos anos 1970, mas aqueles que “oferecem a sua força de trabalho no mercado sem encontrar quem esteja disposto a adquiri-la por um preço que assegure sua reprodução em condições normais” (SINGER, 1981: 22). Estariam nessa categoria, portanto, empregados domésticos, assalariados de pequenos produtores diretos e trabalhadores destituídos das condições mínimas de participação na luta de classes. Eles representavam 63% do proletariado brasileiro no início dos anos 1980.

Para André Singer, numa análise similar ao que Marx realizou com os camponeses no seu livro Dezoito Brumário, o subproletariado é uma camada social historicamente conservadora em nosso país. Para provar a sua tese, o autor usa vários dados eleitorais. Em 1989, Lula teria perdido a eleição presidencial justamente nesta camada, que adversa a processos de rupturas com a ordem (lembremos que estávamos num cenário de fortes enfrentamentos de classe no país e Lula era visto como um candidato socialista e radical), optaram por votar em Collor. Este cenário se manteria até 2006, quando duas mudanças importantes ocorreram durante o primeiro mandato de Lula, permitindo este “realinhamento eleitoral” (SINGER, 2012):

1) com as políticas de distribuição de renda e combate a pobreza, as camadas mais pobres aderem em massa ao “projeto petista”.

2) com a crise do mensalão, a classe média e as camadas mais ricas da sociedade brasileira, que historicamente votavam no PT, migram para a oposição.

Vejamos então os gráficos que retiramos deste artigo citado de André Singer:

3. Abrindo uma reflexão

Este post objetiva problematizar os resultados das eleições municipais e o  fenômeno político conhecido como “lulismo”. Para este, optamos por utilizar a explicação formulada por André Singer por ser a mais instigante. Entretanto, advertimos que não é a única existente, nem mesmo a melhor. Não é nosso objetivo central formular uma critica ao conceito de Singer (talvez num outro artigo), mas vale ressaltar que existe nele uma certa lógica, comum a vários autores brasileiros, em considerar o proletariado brasileiro (no sentido mais amplo, envolvendo inclusive ao que ele chamou de subproletariado) submisso e passivo. Em última instância, esta lógica afirma a impossibilidade de uma revolução social no Brasil aos moldes clássicos (a tomada do poder pela classe operária com ajuda de uma organização revolucionária, etc.). A história brasileira está repleta de fatos que provam o  seu contrário. Talvez o autor represente uma geração de petistas desiludidos (lembremos que André Singer compôs o governo Lula como porta-voz e Secretário de Imprensa do Planalto), que buscam na classe operária os motivos desta “revolução conservadora”. Entretanto, não deveríamos olhar para as debilidades ocorridas na própria formação do PT num dos contextos sociais mais explosivos de nosso país? Fica a questão em aberto.

Referências:

SINGER, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
__________. “Raízes sociais e ideológicas do lulismo”, publicado em 2009 pela revista “Novos Estudos Cebrap”, n. 85.
SINGER, Paul. Dominação e desigualdade. São Paulo: Paz e Terra, 1981.
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