A primavera árabe europeia e a crise econômica

Enquanto no Brasil a crise econômica capitalista foi apresentada como uma “marolinha”, algo passageiro e com pouco impacto social, nos EUA e na Europa ela vem sendo um tsunami que, quatro anos depois, ainda não perdeu a sua força devastadora. Os principais atingidos por esta tormenta continuam sendo os trabalhadores e os setores mais pobres da população, com milhões perdendo seus empregos, suas casas, suas conquistas econômicas e sociais e passando a viver na miséria. E outros milhões ainda terão este destino, segundo as projeções da própria OIT, caso a política de austeridade fiscal (que beneficia os ricos e atinge duramente os pobres) continue sendo a solução.

Discutir a crise econômica capitalista com os alunos permite situá-los nas principais mudanças políticas, econômicas e sociais que ocorrem no mundo atual. A sensação de estabilidade econômica e social que vinga no Brasil desta última década de “lulismo” pode criar uma falsa visão da nossa localização no mundo (uma potência em ascensão?) e de quanto a crise nos atingiu (muito mais do que aparenta). Colocá-la em discussão em sala de aula é apresentar as convulsões sociais que estão acontecendo em vários países da Europa, como a Grécia, Espanha e Portugal. Estas lutas sociais estão mudando o cenário ideológico do velho continente, recolocando em pauta uma palavra que tinha sido banida pelo ideário neoliberal: a revolução.

Quando o Diretor-Geral da OIT fala abertamente em “primavera árabe europeia”, ou seja, em revolução nos próximos anos na Europa é porque o cenário encontra-se explosivo.

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Entrevista com o Diretor-Geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT): “Desemprego pode fazer Europa ter sua Primavera Árabe”.

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA – O Estado de S.Paulo

A capacidade da população grega, espanhola ou portuguesa de suportar cortes sociais está à beira de um esgotamento e, se as taxas de desemprego não começarem a cair, revoltas ao estilo da Primavera Árabe poderão ocorrer em plena Europa.

O alerta é do novo diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o britânico Guy Ryder, que assumiu a entidade após superar outros sete candidatos e hoje não mede palavras para atacar a forma com que a crise vem sendo tratada. Para ele, a estratégia adotada não dá resultados, políticas de austeridade precisam ser repensadas e alguns países, como a Grécia, têm sua estabilidade social seriamente ameaçada.

Ex-líder sindical e ex-secretário-geral da Confederação Internacional de Sindicatos, Ryder recebeu o Estado em seu gabinete, em Genebra, ao retornar de reuniões com a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, François Hollande.

Quanto tempo levará para que o mundo volte a ter as taxas de desemprego registradas antes da eclosão da crise?

Perdemos 30 milhões de postos de trabalho desde o início da crise no mundo. Temos um longo caminho a percorrer, até mesmo para voltar aos níveis anteriores à crise. E ninguém deve imaginar que a situação anterior era ideal. Havia uma crise antes da crise. As taxas de desemprego atingiam mais de 200 milhões de pessoas. Mas não há mais uma resposta para essa pergunta. Depende de como vamos administrar a economia mundial. Alguns dos sinais hoje são extremamente preocupantes. O FMI reduziu sua projeção de crescimento no mundo, o que custará outros 2,4 milhões de postos de trabalho. Portanto, estamos indo na direção errada. A criação de empregos vai depender de como vamos conseguir fazer as economias voltarem a crescer. O que precisamos é de novos esforços para adotar o caminho correto.

O sr. acaba de se reunir com François Hollande e Angela Merkel. Sentiu se eles estão cientes do impacto social das políticas de austeridade?

Em ambos os encontros, fui convidado a apresentar as consequências sociais do que está ocorrendo e a direção em que estamos indo. Tentei mostrar que as consequências da crise são severas, que há limites sociais para a capacidade das sociedades de absorver cortes e disciplinas fiscais. Se você está desempregado, é difícil pagar a conta de luz, e digo isso por experiência própria. Portanto, crescimento e geração de empregos precisam voltar à equação. Claramente Hollande coloca o crescimento como parte da estratégia. Todos reconhecem a necessidade de reduzir dívidas. Mas precisa vir por processos que não asfixiem a economia.

Como o sr. avalia a situação social dos países mais atingidos pela crise na Europa?

O caso mais extremo é o da Grécia, que é mesmo dramático. Você tem hoje na Grécia um Estado que está tendo muita dificuldade em implementar acordos que faz com a comunidade internacional. As metas não são atingidas e os programas não conseguem ser implementados. Na sociedade, as pessoas sentem que não foram consultadas sobre esses planos e não se sentem responsáveis pelos dramas que enfrentam. Portanto, há uma questão de legitimidade.

O sr. acredita que a Espanha, que vê regiões inteiras falando em independência, vá pelo mesmo caminho?

É um pouco diferente. O diálogo existe desde a redemocratização. O clima entre os espanhóis é de que de fato estão dispostos a fazer esforços. Mas ainda assim se questionam: será que esse é o caminho?

Essa política de austeridade vai funcionar?

Por si só, as evidências que temos sobre a mesa é de que precisamos repensar e o caminho não está funcionando. Parte disso é reduzir a intensidade e o ritmo das reformas. Se a intensidade dos cortes for revista, há áreas que podem voltar a ser alvo de investimentos, como a construção, que gera empregos.

Nesses países mais atingidos pela crise, as taxas de desemprego entre os jovens chega a superar 50%. Qual pode ser a consequência disso tudo?

Há duas respostas para isso. A primeira é que esses países podem viver uma Primavera Árabe se isso continuar. Essa foi exatamente a situação que desencadeou a Primavera Árabe. Obviamente que existem diferenças. Mas foi o desemprego de jovens que provocou de fato a revolta na Tunísia, uma sociedade em que a maioria da juventude, muitos com educação superior, estava desempregada. A noção de que ter nível de educação alto representa garantias de acesso ao mercado de trabalho acabou. Há ainda situações em que a estabilidade está ameaçada de uma forma muito real. A Grécia é o exemplo mais claro. Mas há também uma consequência pessoal dessa crise. Todas as evidências mostram que, se um jovem fica sem trabalho por quase dois anos, isso segue aquele profissional por toda sua vida. Os salários são afetados, o desenvolvimento de carreiras, a saúde dessa pessoa é impactada e até a expectativa de vida. Portanto, esse momento da juventude é como uma encruzilhada. É chave nas vidas das pessoas, e governos precisam saber disso ao lidar com o desemprego de jovens.

Apesar das taxas reduzidas de desemprego no Brasil, a economia perdeu fôlego. Como o sr. vê a situação do País?

Sou daqueles que acreditam que o Brasil fez avanços incríveis nos últimos dez anos. Mas dizer que resolveu seus problemas, claramente não é verdade. A sociedade continua desigual, mas avanços iniciais foram feitos. O Brasil superou a tendência de negar problemas. E os resultados começam a aparecer, na luta contra o trabalho infantil e o trabalho escravo. Não significa que seja tudo perfeito. O Brasil é o melhor exemplo de que não há fatalidade nas coisas e, com vontade política, as coisas podem ser feitas.

Eventos como os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo podem trazer ganhos sociais ao Brasil? O Brasil precisa continuar na linha que vem adotando desde o governo de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, quando o País decolou. O Brasil vive o momento “Yes, we can” (Sim, nós podemos, slogan da primeira campanha de Barack Obama). Todos no mundo vamos nos beneficiar pelos avanços sociais no Brasil.

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