Definindo a modernidade

Prof. Ricardo Festi

Vamos nos dedicar agora a definir a Modernidade. Para isso, vamos resgatar um famoso poeta e crítico de arte francês chamado Charles Baudelaire (Paris9/4/1821 — Paris, 31/8/1867). No ano de 1863 ele publicou um texto intitulado “O pintor da vida moderna” e foi nele que pela primeira vez o termo Modernidade foi utilizado enquanto definição de uma época (a nossa época). O texto analisava as obras de um singelo pintor do século XIX, Constantin Guys (Vlissingen 03/12/, 1802 – Paris, 13/12/1892), um pintor da multidão e dos costumes, com um olhar atento para os detalhes da vida cotidiana.

Segundo Baudelaire, Constantin Guys foi em si, por temperamento, um homem cosmopolita e apaixonado por viagens. Não se tratava de um artista, mas antes de um homem do mundo, isto é, “homem do mundo inteiro, homem que compreende o mundo e as razões misteriosas e legítimas de todos os seus costumes” (Charles Baudelaire). Na concepção de Baudelaire, Guys foi um homem moderno, aquele que não está preso em sua terra, como era a situação de um camponês medieval, mas um homem que teve como ponto de partida a curiosidade.

Assim, numa clássica passagem de seu texto, Baudelaire define a Modernidade como “o transitório, o efêmero, o contingente…”. Isso significa que o mundo criado em contraposição a antiga ordem feudal está em constante e rápida transformação.

Você concorda com isso? Será que ainda vivemos numa sociedade moderna?

Outro autor a compreender a essência da vida Moderna foi Karl Marx, analisando a sociedade capitalista em seu famoso “Manifesto do Partido Comunista” escrito em 1848. Numa célebre frase, o revolucionário alemão definiria a modernidade como “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Ou seja, novamente se ressalta a ideia da transição, do volúvel, do transitório.

Mas a modernidade também é permeada pela contradição. Seja nos valores, seja nas ideias, seja na vida concreta. Por exemplo, o mundo capitalista criou riquezas que nenhuma outra época foi capaz de criar. Mas também criou uma surpreendente miséria, jamais vista na história da humanidade. Para Marx, que exaltava a sociedade moderna, essas contradições levariam ao fim do próprio capitalismo a partir de uma ação revolucionária e consciente da classe trabalhadora, a classe representante da modernidade. Ou seja, o capitalismo seria superado, liberando as forças sociais e progressistas criadas pela própria modernidade.

Vejamos esta bela citação de Marx sobre os elementos contraditórios desta sociedade moderna:

De um lado, tiveram acesso à vida forças industriais e científicas de que nenhuma época anterior, na história da humanidade, chegara a suspeitar. De outro lado, estamos diante de sintomas de decadência que ultrapassam em muito os horrores dos últimos tempos do Império Romano. Em nossos dias, tudo parece estar impregnado do seu contrário. O maquinário, dotado do maravilhoso poder de amenizar e aperfeiçoar o trabalho humano, só faz, como se observa, sacrificá-lo e sobrecarregá-lo. As mais avançadas fontes de saúde, graças a uma misteriosa distorção, tornaram-se fontes de penúria. As conquistas da arte parecem ter sido conseguidas com a perda do caráter. Na mesma instância em que a humanidade domina a natureza, o homem parece escravizar-se a outros homens ou à sua própria infâmia. Até a pura luz da ciência parece incapaz de brilhar senão no escuro pano de fundo da ignorância. Todas as nossas invenções e progressos parecem dotar de vida intelectual às forças materiais, estupidificando a vida humana ao nível da força material. (MARX apud Berman, M. Tudo o que é sólido… p. 19)

Veja as pinturas de Constantin Guys:

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